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Opinião... Bea Lema * Corpo de Cristo

Descobri este livro no Festival de Banda Desenhada da Amadora deste ano, uma vez que era um dos livros representados nas exposições. E foi, sem dúvida, uma mais valia, antes da sua leitura. Porquê? Porque o livro tem várias páginas cujo desenho foi bordado, e embora sejam belíssimos, não transmitem tudo o que na verdade a obra é. Os originais estavam expostos e eram magníficos (alías, foi a minha exposição preferida deste ano!).

Bea Lema recorreu a esta arte para contar uma história pesada, relacionada com saúde mental da sua própria mãe. Ela viveu num ambiente diferente desde cedo, com as inúmeras crises que a mãe viveu e, ela, obviamente também. Recorrendo a inúmeras entidades (até exorcismos!), de tudo fizeram para que melhorasse, sem grandes sucessos.

É este dia a dia que vamos encontrar retratado nesta novela gráfica que se pauta pela originalidade na forma de desenhar. O traço é bastante simples, quando desenhado, mas tem a capacidade de transmitir todas as emoções pretendidas.

Gostei muito da história, da abordagem (sem dramatismos), do uso dos bordados (também eles diferenciados, consoante o momento da narrativa que representam) e das cores. Uma novela gráfica marcante!

Opinião mais detalhada em vídeo:




Opinião... Keum Suk Gendry-Kim * Erva


De quanto horror é capaz a humanidade? E como é possível esta capacidade do ser humano de impor sofrimento ao seu semelhante?

Sempre que leio livros sobre as atrocidades cometidas ao longo do planeta, maioritariamente em cenários de guerra, fico muito incomodada. Será que não há evolução na humanidade? Nem esperança?

Em “Erva” Keum Suk Gendry-Kim conta-nos a história verídica de Ok-Sun Lee, uma mulher coreana que desde criança viveu em sofrimento. Nascida numa família numerosa e pobre, os seus pais acharam que entregá-la seria a forma de lhe dar um futuro. No entanto, as promessas de uma vida mais tranquila rapidamente foram substítuidas por um dia-a-dia de trabalho forçado. Que só veio a piorar quando Ok-Sun foi vendida e levada para a China para servir numa casa de Conforto. Era o nome dado às casas onde estavam meninas disponíveis para satisfazer os soldados chineses e japoneses.

Ok-Sun, à semelhança de tantas outras jovens foi abusada, desrespeitada, mal tratada. Passou fome, privações, humilhações. E isto durante anos. Foi a próprio que contou o seu passado à autora, o que torna tudo ainda mais real.

É este retrato que Keum nos entrega através do seu traço tão original. Se por vezes tem uma delicadeza sem fim, noutros é um traço duro e forte, como são as cenas que retrata. Tudo tem o seu momento e esta autora sabe criar impacto no leitor. O facto de ser totalmente a preto e branco também contribui para esta percepção.

Se já tinha gostado (ainda que também me tenha incomodado!) do seu livro anterior “A Espera”, este “Erva” foi muito mais pesado e impactante para mim. Sem dúvida um livro importante, que permanecerá nas minhas estantes para ser relido e sobre o qual falarei sempre que a ocasião o permitir. Fica a forte recomendação!

Opinião... Keum Suk Gendry-Kim * A Espera


Existem livros que chamam por mim, sem que perceba exactamente porquê. Foi o caso deste “A Espera”, soube que o queria ler assim que o vi. Não conhecia a autora, não sabia a sua nacionalidade, a capa pouco me explicou, não li a sinopse. É curiosa esta relação com os livros, não é? Finda a leitura, fico muito feliz com este “chamamento”, já que adorei cada bocadinho desta novela gráfica.

Não sei quanto de autobiográfico contém, mas de qualquer forma, retrata a vida de uma jovem mulher na Coreia do Sul, nos dias de hoje, com dificuldades em suportar uma renda em Seul, o que a obriga a mudar-se para uma zona mais rural, acarretando o peso de deixar Gwijá, a mãe idosa, na cidade, já que esta se recusa a acompanhar a filha. Mas retrata também a vida de outra mulher jovem, há muitos anos, que se viu obrigada a fugir da Coreia do Norte para a Coreia do Sul quando a guerra teve início. Casada há poucos anos e com dois filhos pequenos, Gwijá teve o infortúnio de se perder do marido e do filho mais velho durante esta fuga. Este acontecimento trágico irá marcá-la toda uma vida e hoje, com 92 anos, ainda acalenta a esperança de que a cruz vermelha lhe encontre o filho perdido há mais de 70 anos. Mais ainda depois de ver uma amiga reencontrar a irmã, renovando-lhe a esperança.

As ilustrações são a preto e branco, com um traço simples. E, no entanto, passaram-me tanto sentimento! A dada altura da fuga senti um impacto imenso com os acontecimentos, retratados de forma original e sensível, que me tocaram.

Todos sabemos o quanto a Coreia do Norte é um país fechado ao mundo, por isso mesmo, livros que nos mostram um bocadinho dessa realidade passada são sempre muito úteis. Aqui aliamos conhecimento e sentimentos, num cocktail que resulta numa leitura muito interessante e que recomendo sem reservas.

Opinião... Marjane Satrapi * Mulher Vida Liberdade


 

Marjane Satrapi já deu provas da sua qualidade em obras como “Persépolis” ou “Bordados”. Esta autora iraniana traça um retrato da sociedade do seu país de forma crua e frontal, principalmente no que toca à realidade das mulheres, deixando expostas verdades incómodas, mas tão necessárias…

“Mulher Vida Liberdade” tornou-se no grito de revolta das mulheres (e, pela primeira vez, dos homens também), depois da morte de Mahsa Amini, espancada pela polícia dos bons costumes, apenas porque não estava a usar o véu de forma correcta. A sua morte, em 2022, desencadeou um movimento inédito de revolta, que não quer deixar calar as atrocidades que se praticam contra as mulheres no Irão, em nome do que intitulam ser os bons costumes.

Marjane decidiu fazer este livro, com o auxílio de três conhecedores da história do Irão: Farid Vahid, politólogo, Jean-Pierre Perrin, repórter e Abbas Milani, historiador e director de estudos Iranianos. E fê-lo com dois objectivos: se por um lado pretende dar a conhecer o que se passa no Irão ainda nos dias de hoje, por outro, e uma vez que acompanha tudo isto do lado de fora, quer dar força a quem vive diariamente esta opressão, mostrando-lhes que não estão sozinhos e que a opinião pública mundial está cada vez mais desperta. Por isso mesmo, este livro é ilustrado por inúmeros artistas, a convite de Marjane, sendo a sua maioria de países ocidentais.

O livro é composto por textos explicativos escritos pelos três homens que referi acima e de seguida ilustrados por inúmeros artistas. Todos eles com o seu estilo próprio, a sua identidade, mas com um objectivo comum. Dar a conhecer uma realidade muito fechada ao mundo.

O facto de o livro ter sido construído a várias mãos, dá-lhe uma dinâmica incrível. Foi uma excelente ideia, porque transmite ao leitor a sensação de ouvir vários pontos de vista, várias formas de abordar um mesmo tema, tornando-nos mais conhecedores do mesmo e mais atentos aos pormenores.

Temos aqui uma obra literária que acima de tudo pretende ser de alerta e de informação e, em ambos os casos, o objectivo é sobejamente cumprido. Marjane Satrapi tem uma visão alargada do assunto e muita coragem. Coragem de expor, expondo-se, em nome de um bem maior. Em nome das mulheres, para que não tenham o fim que Mahsa, infelizmente, teve.