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Opinião... Julian Barnes * Mudar de Ideias

Esta foi a minha estreia com o escritor Julian Barnes e, confesso, ia um pouco a medo da escrita que iria encontrar. Fui agradavelmente surpreendida, por uma narrativa simples e directa, com um toque de humor inesperado e imensos exemplos a retratar as ideias apresentadas.

Julian Barnes defende, neste pequeno livro de não ficção, que é legítimo mudar de ideias. Dividido em cinco capítulos, aborda este ideia de cinco perspectivas diferentes, todas elas interessantes e que deixam o leitor a pensar.

A memória, o quanto ela nos pode induzir em erros, por omissões ou confusões com a realidade, fazendo-nos criar certezas por vezes assentes em memórias falsas. As palavras (o meu capítulo preferido) e o seu sentido. A forma com a palavra evolui ao longo dos tempos, acabando por representar uma ideia oposta à da sua origem. A política, e o quanto as ideias políticas podem divergir, quer no eleitor, quer nos próprios partidos, dependendo de quem os lidera. Os livros e o quanto o passar do tempo e a experiência individual condicionam a leitura. E, por fim, a idade e o tempo. Porque de facto, a idade trás consigo conhecimento e sabedoria, que se pode traduzir numa mudança de ideias.

Gostei muito desta leitura, muito mais do que estava a pensar inicialmente. Agradável de ler, curiosa no conteúdo e um ponto de partida para reflexão sobre este tema de mudar de ideias!

E deixou-me cheia de vontade de ler um romance do autor!

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Opinião... Bruce Chatwin e Paul Theroux * Regresso à Patagónia

Bruce Chatwin e Paul Theroux tinham já dois livros sobre a Patagónia quando decidiram escrever este a quatro mãos. “Na Patagónia” e “O Velho Expresso da Patagónia”.

Mais do que um pequeno livro de viagens, este livro é um livro de sugestões de outros livros de viagens, com indicações muito interessantes destes dois autores.

A Patagónia, pelo seu simbolismo e, até, misticismo, acaba por servir de “cola” de todas estas leituras dos dois autores, levando-nos numa bonita viagem.

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Opinião... Mário Rufino * Cadente


Estava numa sessão de autógrafos com a Tânia Ganho, na Feira do Livro de Lisboa, que me apresentou Mário Rufino e sugeriu a leitura do seu “Cadente”. Fiquei de imediato interessada, sugestão da Tânia é sempre para ter em conta!

A verdade é que não desiludiu. Uma leitura um tanto desafiante, é certo, mas um livro incrível sobre uma temática difícil de viver e de lidar. “Cadente” fala-nos da doença de Alzheimer. E fala-nos na primeira pessoa, o que o torna ainda mais intenso e perturbador, ainda que seja uma obra de ficção.

O nosso narrador é o neto. A sua avó foi a enterrar, no entanto, há muito que já não tinha consciência da vida, de quem a rodeava, das suas memórias. Um percurso penoso tanto para ela, como para o neto que ainda tenta, revivendo o passado com ela, buscar essas memórias no recôndito do seu cérebro. Esta viagem ao passado acaba por ser também um pedido de desculpa. De um homem que outrora foi criança e adolescente e que tanto mal fez a esta avó que o criou.

Pelas suas palavras vamos conhecer o passado, as razões por que vivia com a avó, o caminho que trilhou, o desfecho de uma vida sofrida rematada pela terrível doença.

É um livro muito duro e cru, que expõe a dor da perda progressiva. Em termos de escrita, é muito cuidada e, diria até, diferente. Diferença esta que me provocou o desafio, que me desacelerou o passar das páginas, mas que, em retorno, me ofereceu uma narrativa muito mais rica.

Gostei muito deste livro, da abordagem ao tema, da escrita, da sensação de realidade que me provocou. Irei certamente continuar a acompanhar a obra de Mário Rufino!

Opinião... Bruno Vieira Amaral * As Primeiras Coisas

Data Início: 31-03-2014 

Data Fim: 03-04-2014

AutorBruno Vieira Amaral
Título: As Primeiras Coisas
Editora: Quetzal
ISBN: 9789897221217
N. Páginas: 312

Sinopse:
Quem matou Joãozinho Treme-Treme no terreno perto do depósito da água? O que aconteceu à virginal Vera, desaparecida de casa dos pais a dois meses de completar os dezasseis anos? Quem foi o homem que, a exemplo do velho Abel, encontrou a paz sob o céu pacífico de Port of Spain? Porque é que os habitantes do Bairro Amélia nunca esquecerão o Carnaval de 1989? Quem é que poderá saber o nome das três crianças mortas por asfixia no interior de uma arca? Onde teria chegado Beto com o seu maravilhoso pé esquerdo se não fosse aquela noite aziaga de setembro? Quantos anos irá durar o enguiço de Laura? De que mundo vêm as sombras de Ernesto, fabuloso empregado de mesa, Fernando T., assassinado a 26 de dezembro de 1999, Jaime Lopes, fumador de SG Ventil, Hortênsia, que viveu e morreu com medo de tudo? Quando é que Roberto, anjo exterminador, chegará ao bairro para consumar a sua vingança?
Memórias, embustes, traições, homicídios, sermões de pastores evangélicos, crónicas de futebol, gastronomia, um inventário de sons, uma viagem de autocarro, as manhãs de Domingo, meteorologia, o Apocalipse, a Grande Pintura de 1990, o inferno, os pretos, os ciganos, os brancos das barracas, os retornados: a Humanidade inteira arde no Bairro Amélia. 

Comentário:
Quando li a sinopse deste livro pensei que seria um retrato de um bairro degradado, caracterizando os seus habitantes, hábitos e particularidades.
E, na verdade, não deixa de o ser, mas escrito de uma forma que eu não esperava... E de uma forma que me deixou um pouco desiludida.

Um homem destroçado regressa ao seu bairro, o Bairro Amélia. Depois de ter conseguido "fugir" daquele ambiente e de ter uma vida tranquila com mulher e emprego bons, este homem volta a perder tudo e vê-se obrigado a regressar às suas origens. Na sua procura por um rumo, decide conhecer mais a fundo o Bairro onde nasceu e é ele que nos abre as portas a uma realidade desconhecida, através de uma espécie de dicionário do Bairro, onde descreve pessoas, hábitos e lugares.

Senti acima de tudo que não havia um fio condutor da história. Gostei muito da forma como o autor nos descreve o Bairro Amélia, ao ponto de eu duvidar se era ficção ou realidade, e de alguns capítulos com histórias de vida que não me são familiares, mas que achei importante conhecer. No entanto, achei outros capítulos demasiado crus e agressivos, díficeis de digerir...

Classificação: 6/10

Opinião... José Luís Peixoto * Livro


Data Início: 13-04-2012
Data Fim: 18-04-2012

Autor: José Luís Peixoto
Título: Livro
Editora: Quetzal Editores
ISBN: 9789725648995

Sinopse:
Um rapazinho é deixado pela mãe num fontanário, de madrugada. Antes de partir, ela entrega-lhe um livro e promete que voltará dentro de algumas horas. Mas abandona-o e vai para França, trilhando os caminhos da emigração.
Acolhido por uma família da aldeia, e sem nunca mais saber da mãe, o rapaz vai crescer enamorado por uma rapariga da terra que o corresponde nos sentimentos. Chegados à idade adulta, decidem ambos emigrar para França, mas partem separados.
O livro — único objecto de valor que o rapaz possuiu em toda a sua vida — servirá para os manter ligados e é através dele que se vão reencontrar.

Comentário
Bom, este Livro dá que pensar... Temos a escrita tão própria de José Luís Peixoto, uma leitura que apesar de não ser fácil e requerer concentração, tem muito de belo e poético.
Este Livro está dividido em duas partes, uma primeira que retrata o Portugal Interior dos anos 40/50 e a emigração - uma realidade que ouvimos aos nossos pais e avós e uma segunda parte que muda completamente de tom.
Ilídio, rapaz de 6 anos é deixado pela sua mãe junto à fonte nova para ser recolhido por Josué (porque este amava a mãe de Ilídio?). Obrigou-a a tal acto a vergonha, pois o pai biológico de Ilídio era o padre da aldeia. De seguida ela desaparece...
Ilídio cresce junto de Josué e torna-se um homem. Um homem que se apaixona por Adelaide, uma rapariga que vai viver com a sua tia pois os pais não têm possibilidades económicas de sustentar os seus muitos filhos.
Adelaide corresponde a este amor e junto com o pedido de namoro, Ilídio oferece-lhe um pombo, cem escudos e um livro (o LIVRO). Os planos de casamento dos dois jovens são arruinados quando a tia ciumenta envia a sua sobrinha para França, para a afastar de Ilídio.
Começa nesse momento a aventura de emigração para Adelaide. Ilídio segue-a, acompanhado pelo amigo Cosme, deixando tudo para trás. Depois de uma viagem muito atribulada e de muitas contrariedades, ambos acabam por conseguir instalar-se a adaptar-se a um novo país e uma nova vida, mas sempre separados, pois nunca quis o destino que se encontrassem. E a ajudar o destino esteve a tia Lubélia que escondeu as cartas que ambos enviaram para casa, único recurso que permitiria o seu reencontro.
Os anos passam e Adelaide resigna-se. Conhece Constantino na biblioteca onde trabalha e acabam por casar-se. O que parecia um casamento calmo e equilibrado, torna-se num regime tirano, pois Constantino passa a controlar todos os movimentos de Adelaide e tem ciúmes de tudo e de todos. Muitos anos depois Adelaide consegue finalmente permissão do seu marido para passar umas férias em Portugal, num Verão em que Ilídio também se encontrava na aldeia junto de Josué.
O amor fala mais alto e com um encontro fugaz entre eles termina a primeira parte do livro...

E com Livro percorremos a segunda parte, mais filosófica e dada a devaneios, surpreendendo o leitor inúmeras vezes.
Confesso que houve partes que me empolgaram muito, outras que nem tanto...
É um livro que merece ser lido, com calma e com espírito. Ganha, sem dúvida, pelas partes originais (quem o ler, saberá do que falo!).

Classificação: 7/10