Opinião... St John Greene * A Lista da Nossa Mãe


“A Lista da Nossa Mãe” habitava as minhas estantes há já muito tempo, sem ser lido. E eu sei porquê… Porque eu tinha receio de o ler, de sofrer com o seu conteúdo.

Na minha missão de ler os livros mais antigos da minha biblioteca, calhou agora a sua vez e afinal tinha criado uma imagem que não correspondeu à realidade. E foi isso mesmo que me fez gostar menos deste livro, já que tratando-se de um tema tão duro e pesado, a minha expectativa era que me tocasse e incomodasse. Não aconteceu… E julgo que tal se ficou a dever ao facto de ter sido escrito por uma pessoa externa aos acontecimentos.

Temos aqui um livro de não ficção, cujo ponto de partida foi uma lista de coisas que Kate deixou ao seu marido, que ela gostaria que ele fizesse ou relembrasse. Isto porque ela faleceu, depois de ser assolada por uma terrível doença, deixando dois filhos pequenos.

O mais chocante nesta história verídica é que, quando Kate descobre a sua doença, o seu filho mais velho tinha acabado de lutar, também ele, pequenino, contra a mesma doença. Não consigo sequer imaginar o quão devastador deve ter sido para esta família!

Kate foi a imagem da esperança e do positivismo enquanto foi viva. Viveu e apreciou cada momento, mesmo quando enfrentava tão duras batalhas. Neste aspecto, este livro é uma enorme lição! O seu marido, St John ficou com um fardo pesadíssimo. Por um lado, viver o seu luto de forma discreta, porque havia duas crianças pequenas para cuidar, por outro, viver com a sombra da doença do seu filho de forma permanente. Mas também ele é um bonito exemplo do que o amor à família consegue fazer.

Depois temos a lista, que contém coisas práticas, lembretes, memórias, pedidos e muito amor. É um livro que nos lembra do quanto é importante viver o presente, porque não sabemos o que nos reserva o futuro. Só por isso já valeu a pena a sua leitura!

Opinião... Sebastià Cabot * Novembro

 


Sempre que leio uma novela gráfica, procuro duas coisas: ilustrações magníficas que me arrebatem e uma narrativa bonita com uma história interessante. Nem sempre acontece, obviamente. Em grande parte dos casos, encontro ilustrações lindas com uma história simples ou uma história incrível, com ilustrações que acabam por crescer apenas porque a acompanham. O pleno é obviamente o que me arrebata.

Isto para dizer que em “Novembro” aconteceu exactamente o oposto, nem as ilustrações, nem a narrativa me convenceram... Acontece, não é possível gostar de tudo e nem sempre se acerta. Cada leitor tem os seus gostos e experiência e os livro tocam de forma pessoal e distinta cada um deles.

Em “Novembro” iremos conhecer um escritor em crise criativa. Percebemos igualmente que a sua relação já conheceu melhores dias. De seguida, fazemos uma viagem ao passado, para entender o início desta mesma relação, com final anunciado...

Poderei não ter compreendido a intenção do autor ao criar esta obra, mas o que captei não foi além desta linha narrativa básica, que pouco me acrescentou.

As ilustrações também não são as minhas preferidas, embora tenham um pormenor de que gosto muito. A mudança de cores ao longo das páginas (cada duas páginas têm apenas uma cor além do preto e branco), adequadas ao ambiente que se vive.

É uma leitura rápida, por isso mesmo, terminei-a, mas não me acrescentou o que esperava. Sinto que esta história será rapidamente esquecida, porque não marcou. Não gosto que tal aconteça, mas nem sempre se acerta...

Opinião... Emily Henry * Uma Boa História


 

“Uma Boa História” marca a minha estreia com a autora Emily Henry. Já há bastante tempo que queria conhecer os seus livros e, posso já avançar, foi uma experiência muito positiva.

Depois de várias leituras mais pesadas e tristes, este livro veio no momento certo. Soube-me tão bem passear pelas suas páginas...

Falando da história, temos uma narrativa simples, um romance romântico com todos os ingredientes que se esperam: um amor forte, uma ruptura inesperada, um apoio ainda mais inesperado, dúvidas, amizades e traições.

Daphne e Peter são um casal amoroso. Ele adora contar a sua história a dois. No entanto, à medida que o casamento se aproxima, Peter começa a ter dúvidas. Petra e Miles são outro casal onde tudo aparenta estar bem. É por isso que, no dia em que Peter comunica a Daphne que não quer continuar a relação e que se irá juntar a Petra, tudo se desmorona.

Daphne vê-se, de repente, sozinha numa localidade onde nunca criou raízes, sem amigos (os poucos que tinha eram por intermédio de Peter, pelo que rapidamente desapareceram), sem lugar para morar. Por outro lado, Miles está igualmente perdido, com o fim inesperado da sua relação e sem forma de pagar a casa, sem dividir a renda. É desta forma que se vêm a partilhar casa e... tristeza.

A partir daqui, tudo o que é esperado acontece...

O que mais apreciei neste livro foram, sem dúvida, os diálogos entre as personagens, recheados de referências, bom humor e uma quase competição de palavras. Falando em humor, adoro quando um romance tem a capacidade de o incluir de forma subtil, mas com forte presença. Aqui acontece em pleno. Dei por mim a sorrir a ler este livro. Que bem que me soube! Previsível, sim, mas delicioso de se ler! Agora é desbravar os restantes livros desta autora, já editados no nosso país.

Opinião... Christian Lax * A Universidade das Cabras

 


“A Universidade das Cabras”, um título aparentemente estranho que faz todo o sentido depois de lida esta maravilhosa novela gráfica!

Folheei o livro na primeira vez que o vi e o que me chamou de imediato a atenção foram as ilustrações. Porque sem serem totalmente definidas, são tão cativantes. Mais ainda quando se vai lendo e percebendo as subtis alterações de ambiente que vão imprimindo à narrativa. As ilustrações de página inteira, cortadas para dar a sensação de movimento da personagem são tão bonitas! Perdi-me muitas vezes nestas páginas, confesso.

Mas não foram só as ilustrações que me cativaram, a própria história, repartida no tempo e entre diferentes personagens sem aparente ligação é muito interessante! Começamos por conhecer Fortuné, em 1833, um professor itinerante nos Alpes franceses, que percorre centenas de quilómetros com o único objectivo de distribuir conhecimento às crianças sem acesso ao ambiente escolar. Ele tem três penas no seu chapéu, indicativo de que tem competências em três áreas: leitura, escrita e números. Mas as leis mudam e, de um momento para o outro, Fortuné vê-se impossibilitado de exercer a sua profissão. Escolhe então vender livros, permanecendo na sua saga por distribuir cultura, mas uma vez mais é barrado. É então que decide partir, numa viagem que o leva para longe e que lhe muda a vida para sempre.

Vamos também conhecer Arizona, na actualidade, uma jornalista que irá ao Afeganistão entrevistar mulheres que marcaram a diferença. O seu guia será Sanjar, um homem que já foi, também ele professor itinerante, levando o seu quadro preto às localidades mais recônditas, para que as crianças (meninos e meninas) pudessem aprender a ler e escrever. Mas também ele viu os seus intentos bloqueados… E é aqui que as histórias se começam a enredar…

Este livro dá que pensar. Como é que tantas décadas se passaram e ainda assim, a história se repete? O que poderá não ser tão chocante quando passado em 1833, toma contornos muito mais assustadores pela proximidade aos nossos dias. “A Universidade das Cabras” tem ainda um posfácio brilhante, que enriquece em muito a leitura deste livro. Não deixem de a ler!

Opinião... Nuno Franco Pires * Abril


 

Apaixonei-me pela escrita de Nuno Franco Pires ao final da primeira página, do primeiro livro que li do autor. E a cada novo livro, é sem dúvida a escrita que me encanta e cativa. Um verdadeiro deleite!

“Abril” dá seguimento ao livro anterior “Sombras da Raia”, e tem início no dia 24 de Abril de 1974, aquele que marcou a viragem, em termos políticos, do nosso país. Todo este processo de transformação está muito bem documentado, sem ser exaustivo ou cansativo. Para mim, que não aprecio particularmente ler sobre política, foi perfeito. Trouxe-me conhecimento mantendo o fio condutor da história da família Castro Gomes, família reputada em Elvas, que viu crescer os irmãos Afonso e Duarte, ao lado da menina austríaca que acolheram, Mia.

Esta família, à semelhança de tantas outras, irá sofrer as consequências das escolhas políticas (que não são sequer consistentes no seio da própria família!) e que obrigaram o irmão mais velho a fugir com a mulher para Espanha, atravessando o rio a nado. Esta fuga é um ponto alto na história, breve, mas intensa!

Temos aqui um pouco de tudo: uma parte significativa da história política portuguesa, vista pelos olhos de quem estava longe das grandes cidades, temos a saga desta família que já conhecemos do livro anterior, temos paixões proibidas, amores inocentes, um crime e muita dor.

Temos uma narrativa cheia de pormenores, com muito em relativas poucas páginas. Isto porque Nuno Franco Pires tem a capacidade de relatar algo mundano de forma bonita, terna e até saudosa. Sim, porque este livro deixa saudades, apetece continuar esta viagem, leve (ainda que a história tenha momentos muito tensos!), serena (ainda que descreva uma revolução) e próxima (ainda que Elvas fique a uns bons quilómetros, junto à raia!). É este o poder de um livro, de nos levar para outro lugar, para outro momento, para outra realidade. “Abril” foi uma viagem e tanto!

Opinião... Freida McFadden * Nunca Mintas


Vamos a mais uma Freida McFadden? Pois é, comecei o mês de Maio com um desafio. Testar, para ver se conseguia ler um livro num dia. A escolha, dentro da minha TBR deste mês, pareceu-me obvia, já que costumo devorar os livros da Freida. Spoiler alert… consegui!

E não foi nenhum esforço, já que os livros da Freida sabem mesmo bem ler de forma compulsiva. “Nunca Mintas” não foi excepção.

Tudo começa quando Tricia e Ethan vão visitar uma casa que pretendem comprar. A casa é isolada e longe do rebuliço, exactamente o que procuram. Só que não escolheram o melhor dia para a visita, já que começou a nevar muito, prendendo-os sozinhos na casa (a senhora da imobiliária não conseguiu sequer chegar à propriedade). Uma luz acesa no andar de cima, leva-os a pensar que há alguém em casa, mas quando chegam lá tudo está às escuras afinal. E esta não é a única circunstância que os faz acreditar que não estão sozinhos, já que vão acontecendo pequenos incidentes muito estranhos… Mas a neve é soberana e nada mais lhes resta do que ficar abrigados.

Numa tentativa de se distrair, Tricia faz uma ronda pela biblioteca da antiga proprietária, uma famosa psiquiatra que desapareceu sem deixar rasto, três anos antes. O que ela encontra é muito diferente de literatura, mas igualmente interessante, as cassetes onde a médica gravou cada uma das consultas com os seus pacientes, escondidas numa sala secreta. Tricia não resiste à curiosidade e começa a ouvir estas cassetes. O que ela não esperava era ficar a saber de situações que poderão ter levado ao desaparecimento da doutora…

Este livro teve a capacidade de me pregar uma rasteira monumental. Criei as minhas teorias, conjecturei situações, mas nunca imaginei o desenlace. O título de um dos capítulos, (e atenção, bastou o título!), deixou-me de queixo caído. E a partir daí começa uma montanha russo do quem é quem que me divertiu muito!

Aprecio muito uma característica da Freida. Ela não cria personagens estanques, todas elas têm coisas boas, mas também esqueletos no armário. E é muito divertido perceber os elos e ver a teia crescer até que tudo faça sentido. Aqui foi muito evidente esta construção, que gostei muito.

A conclusão é similar a outros livros da autora, thriller viciante, com boas personagens e com um fim (mesmo na última frase) que ainda tem qualquer coisa a dizer. Muito inteligente!

Opinião... Freida McFadden * O Escritório


Escrever opiniões de vários livros de um mesmo autor, num curto espaço de tempo, e quando o autor mantém um registo estável, torna muito complicado não entrar em repetições.

Já me ouviram (e leram) dizer que Freida McFadden escreve thrillers viciantes, que apetece devorar. “O Escritório” não é excepção… Também já disse que os seus livros reservam sempre ao leitor plot twists inesperados que o apanham de surpresa. Mais uma vez, “O Escritório” não é diferente…

Desta feita, a acção passa-se, como o título indica, num escritório. Natalie é a melhor vendedora de produtos nutricionais da empresa, a Vixed e não guarda o feito para si, tomando até uma atitude de alguma sobranceria sobre os colegas. Já a nova colega, a Dawn, é o total oposto. Tímida e introvertida, obcecada por tartarugas e por ter tudo no lugar, é a vítima perfeita.

Sim, porque temos aqui bullying no trabalho. Natalie não perde uma oportunidade de rebaixar a colega, ainda que divulgue aos quatro ventos, o quanto a tenta ajudar. Mas tudo muda quando a pontualíssima Dawn falta ao trabalho. Pior ainda quando o seu telefone de secretária toca e Natalie atende para ouvir uma voz aflita a pedir socorro. Natalie não sossega e vai a casa da colega ver o que se passa e o que encontra irá mudar o rumo da sua vida…

Temos aqui um enorme jogo do gato e do rato, com muitas reviravoltas inesperadas e nenhuma personagem confiável. De tal forma que todas parecem suspeitas e, simultaneamente, inocentes. Nenhuma personagem é daquelas que apetece perdoar tudo, mas também nenhuma é odiável… confesso que não desvendei este desenlace e ainda bem, já que torna tudo mais empolgante.

Este é mais um daqueles thrillers que se lêem compulsivamente, que entretêm e espicaçam o leitor. Cada livro tem a sua função, e a deste é, sem dúvida, o entretenimento. Se é o que procuram, a aposta é segura!

Opinião... Lourenço Seruya * Crime na Aldeia


 “Crime na Aldeia” é o quarto volume da série “Bruno Saraiva”, e marca o aguardado regresso do autor Lourenço Seruya.

Desta feita, Lourenço leva-nos até Piódão, uma das belas aldeias de xisto do nosso país. Por falar em Piódão, esta é uma das características transversais aos livros do autor que eu tanto gosto, a importância do sítio onde a acção de passa. O autor referiu isso mesmo na apresentação deste livro, que tudo nasce do sítio escolhido e a narrativa cresce a partir daí. Acho muito interessante esta abordagem e gosto muito do resultado!

Depois, outro ponto chave nos livros desta série são as personagens. Em thrillers, é pouco comum haver personagens com espaço e tempo. O foco é sempre a acção e as personagens acompanham-na. No “Crime na Aldeia” (e nos livros anteriores também), sinto que tive tempo de conhecer cada uma das personagens, vê-las sobre várias perspectivas, perceber as suas razões. Quase como se de um romance se tratasse, o que é muito bom.

Falando um pouco da história deste livro, Gabriela pretende ir a Arganil, mas o seu carro não pega. Pede o carro emprestado ao pai, já que a reunião que tem é de extrema importância, contudo, sofre um acidente nas estradas sinuosas e morre.

O que de início parecia um trágico acidente, cedo se revela um crime, já que o carro tinha o fio dos travões cortados. A partir daqui entra em acção a dupla de inspectores que já conhecemos, Bruno e Carolina.

O facto de estarmos numa aldeia, que reduz substancialmente o leque de possibilidades, obriga o autor a criar uma teia muito bem urdida, de forma a levantar suspeitas fundamentadas em vários pontos para despistar o leitor. Lourenço Seruya conseguiu-o na perfeição! Tanto que não suspeitei do final até ser “atropelada” por ele!

O meu único “senão” com este livro prende-se com uma atitude de Gabriela que não posso referir aqui porque seria um enorme spoiler, mas que não compreendo muito bem e me levantou algumas questões quanto ao todo da história.

Ainda assim, gostei muito desta leitura, entreteve-me e manteve-me sempre alerta, à procura de sinais. Gostei muito de algumas personagens deste livro, do toque de humor, dos regionalismos. E, claro, fiquei cheia de vontade de conhecer esta linda aldeia!

Opinião... Ka Hancock * Dançando Sobre o Vidro


Terminei “Dançando sobre vidro” em lágrimas. Não sou muito de chorar com livros, mas este tocou-me profundamente. Isto porque a sua temática é muito dura e, principalmente, porque os acontecimentos no final do livro me apanharam de surpresa.

Temos aqui um amor quase impossível. Mickey sofre de doença bipolar, com crises violentas e frequentes que o levam ao internamento (achei estas partes muito bem representadas, francas e directas, perturbadoras). Já Lucy tem sobre si o peso da doença que lhe levou a mãe, o cancro. Ela e as suas irmãs sofrem e temem que a genética as condene. Mas o amor destas duas personagens fala mais alto e, aceitando-se, casam.

A verdade é que a sua relação assenta em verdade e na vontade de proteger o outro. Juntos irão lidar com várias crises de Mickey e com a temida doença, quando esta bate à porta de Lucy. Iremos conhecer este casal anos depois da recuperação de Lucy, numa altura em que já tinham decidido não ter filhos, para não correrem riscos de passarem algum mal para o bebé. Mas o destino prega-lhes nova partida, e Lucy, apesar de tudo, engravida. Mas não têm tempo sequer de assimilar a novidade, porque o maldito cancro está de volta também.

É aqui que todas as decisões são necessárias, porque gravidez e tratamentos não são compatíveis. É um sofrimento contínuo até ao final do livro, deixo o alerta!

A história é-nos contada a duas vozes, intercalada entre os pensamentos do Mickey (várias vezes meio perdidos) e a acção relatada pela perspectiva da Lucy. A dada altura entendi o rumo da narrativa e não me enganei (até determinado ponto), mas tal não estragou nada na leitura. Até porque o final ainda me reservava algo inesperado que me deixou de rastos.

É intenso, é emotivo, mas tem uma mensagem avassaladora. O amor é, de facto, um sentimento muito poderoso. E lindo, quando vívido em pleno.

Uma última palavra para o título, aparentemente estranho, mas que faz tanto sentido nesta história. Simplesmente perfeito!

Opinião... Nguyen Phan Que Mai * Quando as Montanhas Cantam

 


Que leitura incrível foi esta! “Quando as Montanhas Cantam” tem tudo o que procuro num livro: uma história de família bem construída, com personagens sólidas, incríveis e memoráveis. Para além disso, ainda contém muita História do Vietname, que desconhecia e me perturbou.

Temos aqui uma avó e uma neta como protagonistas principais, ainda que tenhamos muitas outras personagens com muito relevo para a história. E a acção passa-se em três momentos diferentes no tempo, o presente, um passado mais antigo, quando a avó era uma criança e um passado intermédio, quando a avó é adulta, com os seus filhos crianças.

No presente, Huong e a sua avó vivem o terror da guerra. Os pais e tios da pequena Huong partiram para a frente de batalha, pelo que as duas estão sozinhas a enfrentar a destruição da sua cidade e da sua vida. É nesta altura que a avó conta a Huong o seu passado, desde a infância, como forma de a levar para fora da realidade avassaladora que vivem. Mas o passado também não foi fácil. A avó nasceu no seio de uma família abastada que perdeu tudo, assistindo ao que não devia, muito nova ainda. Depois, já mais velha e com a vida relativamente estável, viveu a reforma agrária que a obrigou a fugir com os filhos, deixando tudo para trás (esta fuga foi a parte mais perturbadora do livro, para mim).

Toda a história desta mulher é de sofrimento, perdeu tudo, viu o pai morrer da pior forma, recuperou para voltar a perder tudo, teve de fugir, teve de tomar das decisões mais difíceis que uma mãe precisa de tomar e vive agora tempos de guerra. Teria todos os motivos para ser amargurada, com sede de vingança e, no entanto, tudo o que ela quer é amar a sua família, mantendo-a próxima e unida. Que personagem maravilhosa. Ficará para sempre comigo, como exemplo a seguir, sem dúvida!

Não tinha noção da dimensão do sofrimento deste povo. Embora seja uma história de ficção, baseia-se em situações reais, algumas delas passadas na família da autora, o que confere outra dimensão à leitura. É caso para dizer, a realidade consegue, muitas vezes, ultrapassar a ficção.

Esta é daquelas narrativas que me arrebatam e me deixam de lágrima no olho no final do livro. A escrita de Nguyen Phan Que Mai é simples, mas despojada de artifícios, tornando tudo muito real e próximo. Não é que eu goste de sofrer a ler, mas sendo retrato de uma sociedade não tão distante assim em termos temporais, é de extrema importância conhecer esta realidade. Recomendo muito a sua leitura!

Opinião... Maria Francisca Gama * A Cicatriz


Isto que vos vou dizer agora é pura verdade. Terminei “A Cicatriz” ao final da noite, já na cama, e sonhei com este livro. Acordei com uma sensação de angústia que nunca experimentei com outra leitura… E isto é dizer muito de um livro, capaz de nos transmitir tal emoção, com esta intensidade!

Se tivesse de descrever esta história em poucas palavras, escolheria: expectativa, ansiedade, angústia, horror e sofrimento. Porque toda a acção é como que uma crónica de uma morte anunciada, parafraseando o querido Gabriel García Márquez.

Desde o primeiro momento, o leitor sabe que algo de trágico aconteceu e que a nossa protagonista/narradora está no seu limite. Só não sabemos o que foi concretamente (embora se vá tornando mais previsível a cada nova página), nem o que o ultrapassar daquele limite representa.

A protagonista e o seu companheiro (a quem ela se refere como “ele”, sem nome) partem para o Brasil, numa viagem que esperam ser de sonho, quase uma lua de mel antecipada. Decidem viver o que de melhor o Rio de Janeiro oferece, sol, praias, caipirinhas, água de coco, bons restaurantes e bonitos passeios. Ainda assim, sempre alertados para os perigos que aquela cidade representa, principalmente para os gringos! Mas o hábito faz o monge e a falsa sensação de segurança faz com sejam cada vez mais descuidados, principalmente à noite. Até ao dia…

Toda a narrativa transmite uma ansiedade inacreditável para o leitor. A escrita de Maria Francisca Gama é muito inteligente, a forma como constrói as frases, como fala directamente com o leitor, como vai deixando recados aqui e ali. A veracidade que confere às suas palavras é outro ponto forte. Acreditei em cada palavra, como se uma amiga me falasse e isso fez-me sofrer, ao acompanhar o sofrimento dela. É intenso, aviso desde já!

Outra coisa que gostaria de salientar é o facto de haver tanto em poucas páginas (o livro tem pouco mais de 160 páginas). E não precisa de mais, está lá tudo, numa verdadeira montanha-russa que nos deixa de cabeça para baixo e estômago às voltas. É muito cru, não tem subterfúgios naquilo que quer contar, afinal a nossa personagem principal já escondeu o que aconteceu, de todos, demasiado tempo. É, agora, altura de contar a verdade e de se libertar.

Opinião... Jenny Colgan * O Café Junto ao Mar


Não se apreciar um livro de um autor que se adora é uma dor na alma… Jenny Colgan é das minhas autoras de romances “fofinhos” preferida. Tem a capacidade de criar narrativas amorosas, que me envolvem e me transportam para o lugar onde se passa a acção (sempre locais que desejo visitar) e personagens que aprecio e que torço muito que tudo lhes corra bem.

“O Café Junto ao Mar” não me ofereceu tudo isto. Achei toda a história mais “morna”, pouco original e não senti o esperado carinho por Flora, a personagem principal.

Acredito que parte deste sentimento se deva também à tradução deste livro. Existem inúmeras frases que me fazem pouco sentido, na forma como estão construídas. Isto obrigou-me a reler várias passagens, perdendo o ritmo de leitura e o entusiasmo, confesso.

Flora vive em Londres e trabalha num escritório de advogados. Mas ela é escocesa, mais precisamente de uma ilha muito a Norte, chamada Mure. Vive, portanto, afastada da família e da localidade que a viu crescer. Isto porque desde o funeral da mãe, se sentiu mal acolhida e decidiu partir, deixando para trás o pai e os irmãos, entregues à vida rural de sempre.

Quis o destino que um cliente da empresa onde trabalha quisesse uma profissional escocesa para tratar de um assunto pendente, precisamente em Mure. A escolha foi óbvia, apesar da pouca experiência, Flora era a única funcionária que cumpria o requisito, e vê-se, repentinamente, de volta à sua terra Natal.

Primeiro veio o choque do confronto com a realidade que escolheu deixar para trás, para a seguir os laços de sangue falarem mais alto e, é desta forma que Flora se vê de novo no seio da família, enquanto tenta ajudar o cliente a ser aceite naquela ilha pouco receptiva a estranhos.

Para temperar tudo isto, temos ainda a paixoneta que Flora tem há muito tempo pelo seu chefe, um mulherengo de sucesso da grande Londres, que, ao ver-se naquela ilha, percebe que existe mais vida para além da que rodeia o seu umbigo.

Gostava muito de ter gostado mais deste livro. Não aconteceu. Faltou-me empatia com as personagens, faltou-me entusiasmo com a história. Ainda assim, a parte que mais retive e apreciei foi, sem dúvida, a que toca às tradições escocesas, tão diferentes e originais e muito bem retratadas neste livro.

De qualquer forma, um livro não faz uma autora e Jenny Colgan permanece inabalável no seu lugar de autora de romances fofinhos no meu coração.

Opinião... Kristin Hannah * As Mulheres

Se me pedirem uma lista de autores(as) preferidos, certamente Kristin Hannah fará parte da mesma. Já li inúmeros livros da autora e entre eles encontram-se alguns dos meus preferidos de sempre, como “O Rouxinol” ou “A Grande Solidão”.

Esta premissa eleva de imediato a fasquia, mas Kristin Hannah nunca desilude! “As Mulheres” é um livro e tanto. Há aqui de tudo: uma boa história, uma pesquisa apurada do que foi a presença feminina na Guerra do Vietname, personagens extraordinárias e um romance bonito, embora dramático.

Fiquei muito surpreendida e, até indignada, com o que descobri neste livro. E terão sido, talvez, estes os sentimentos que impulsionaram a autora a contar esta história. Porque a verdade é que embora as mulheres tenham estado presentes na Guerra do Vietname, como enfermeiras ou médicas, salvando inúmeras vidas, nunca foram reconhecidas nem valorizadas por tal. Mais do que isso, após a Guerra, todos afirmavam que não tinham estado presentes e chegava a ser uma vergonha falar do assunto.

Vergonha foi também o que sentiu a família de Frankie, a nossa protagonista. Ela decidiu alistar-se depois de perder o irmão para esta guerra. A ida do irmão, ao contrário da sua, foi motivo de orgulho, visto como um herói. Mas Frankie decide seguir o seu coração e dá início a esta odisseia, nunca esperando as condições com que se deparou. Mas ela revela-se muito mais forte do que aparenta e transforma-se numa enfermeira de topo.

O livro é composto por duas partes, a primeira passada no Vietname, pesadíssima. Assistimos, juntamente com Frankie, a todo o tipo de atrocidades e à perda de vidas de forma brutal. Vale-lhe o sentimento de dever cumprido e a amizade para toda a vida com duas outras mulheres. O apoio entre elas é o que lhes permite sobreviver física e mentalmente. Na segunda parte do livro, acompanhamos a nossa protagonista no seu regresso aos EUA. Ao choque com uma realidade totalmente inesperada e adversa. Os próprios pais não a conseguem encarar, preferindo mentir e afastar-se. Perdida, Frankie terá de aprender a viver com esta nova realidade. A ajuda das suas duas amigas será uma vez mais essencial…

Este livro está cheio de grandes mensagens, mas a maior de todas, aquela que retenho e admiro é o poder da amizade.  A relação entre estas três mulheres é fabulosa e é bastante compreensível que tais laços tenham sido criados e solidificados.

Kristin Hannah é uma exímia contadora de histórias. Bem documentada, consegue colocar o leitor em qualquer cenário, seja ele idílico ou de guerra. A sua narrativa é vívida e permanece (e permanecerá) na minha mente. Há também lugar a romance aqui e, embora na minha opinião, não seja de todo o foco de “As Mulheres”, foi igualmente bem construído. Mais um livro muito duro, mas brilhante desta autora que tanto admiro!

Opinião... Rosária Casquinha da Silva * Da Janela Vejo o Sandokan


Ler “Da Janela Vejo o Sandokan” foi uma experiência de leitura diferente das que costumo fazer. Trata-se de um livro de short stories, que representaram para mim uma pausa no dia-a-dia, como aquele momento em que paramos para beber um café.

Por falar em café, esta bebida é uma presença marcante neste livro, bastante associada à janela que dá título ao livro, já que permite os momentos de reflexão e (até) divagação que resultam nestas pequenas histórias.

Há aqui um pouco de tudo, muitas memórias, saúde mental, momentos divertidos ou recordações de viagens. Imagino a autora na sua rotina diária a deparar-se com uma determinada situação que servirá como gatilho para algo que precisa de contar.

Temos muito em poucas páginas, porque temos o importante. Mensagens que a Rosária quis transmitir através das suas bonitas palavras, porque escreve realmente de forma bonita e cuidada, sem ser em demasia. Eu li o livro todo de seguida, mas é um livro que pode perfeitamente estar algures pela casa, e sempre que nos cruzarmos com ele, ler uma passagem. A tal pausa tantas vezes necessária!

Gostei particularmente da história “Palpitite”, que, pelo título, me indiciou uma coisa, mas que me levou por um caminho diferente do esperado e, no entanto, que gostei tanto! A leitura deste livro representou sempre uma pausa muito apreciada, obviamente que gostei mais (e me revi mais) numas histórias do que noutras, o que me parece perfeitamente normal, já que todos temos a nossa própria experiência que se reflete na forma como lemos.


 

Opinião... Ann Napolitano * Olá, Linda


Por vezes a relação de um leitor com um livro é muito curiosa e passa por várias fases. Foi o que me aconteceu com “Olá, Linda”. Comecei a sua leitura com muito entusiasmo e expectativas, depois de tanto ouvir opiniões muito positivas, para me deparar com uma leitura que não me agarrou de imediato. Até mais de meio do livro achei a história bem construída, mas sem me empolgar, o que esmoreceu o meu entusiasmo inicial.

A partir de determinada altura, ganha um novo fôlego e segue em crescendo até ao final. Mas ainda assim, precisei que passassem uns dias para sentir a força desta história em mim. Porque hoje, dou por mim a reviver momentos desta narrativa e a relembrar estas personagens, tão bem construídas.

Porque sim, a força desta história está totalmente centrada nas suas personagens. A família Padavano e todos os que com ela convivem são aqui dissecados e expostos desde pequenos até à meia-idade, passando por inúmeros eventos traumáticos.

Julia, Sylvie, Cecelia e Emeline são as quatro irmãs Padavano. O pai, Charlie, vive num outro hemisfério, onde as responsabilidades de adulto não existem. Já a mãe, Rose, tem sonhos que quer ver concretizados através das filhas e é o motor desta família.

William vive só e sente-se abandonado, depois da família ter sido destruída pela morte da sua irmã mais velha, quando ele era ainda um bebé. William irá encontrar em Julia uma companheira e na sua família, o aconchego que falta na sua. Até que os desejos de uns não coincidem com os de outros e os confrontos se tornam inevitáveis, abrindo brechas profundas nas suas relações.

Adorei poder acompanhar a vida destas personagens ao longo de tantos anos e, até, diferentes gerações. Sentir a sua evolução (nem sempre positiva), o seu amadurecimento. Os obstáculos que a vida lhes impôs, tornaram-nos quase humanos, reais.

A escrita de Ann Napolitano tem uma característica que gosto bastante. Lança uma determinada situação sem contexto imediato, para, no capítulo seguinte, explicar o que lhe deu origem. É uma interacção muito interessante com o leitor.

E, como disse no início, este livro tem vindo a infiltrar-se na minha pele com o passar dos dias e a consolidar o espaço que lhe é devido. Não é frequente acontecer, mas não deixa de ser uma sensação muito interessante!

Opinião... Sarah Addison Allen * Memórias de Família - A Árvore dos Segredos

 


Vou começar esta minha opinião pelo final e dar, desde já, as más novas… “A Árvore dos Segredos” foi o livro que menos gostei de todos os que li da autora (e já foram uns quantos).

Dito isto, importa explicar as razões. Reflectindo um pouco no assunto, diria que são essencialmente duas: primeiro, a história leva imenso tempo a arrancar, ao fim de muitas páginas lidas, muito pouco tinha acontecido, o que acaba por desmotivar a leitura. Ainda assim, se depois oferecesse uma narrativa cativante e emocionante, este início seria facilmente esquecido. Não foi o caso, infelizmente. O que me leva à segunda razão: achei toda a história muito rasa, muito óbvia, sem grandes elementos de originalidade, que me puxassem para a leitura.

Nesta história temos duas netas e duas avós: Willa e a avó Georgie, actualmente num estado avançado de perda de memória e Paxton e a avó Agatha, a viver num lar, mas com o mesmo feitio rebiteso de sempre. Georgie era descendente de uma família rica que perdeu tudo e Agatha viveu e vive no meio da riqueza. Mas elas eram grandes amigas e partilharam um grande segredo. Segredo esse que ficou encerrado na casa de Blue Ridge Madam, entretanto ao abandono. Mas quando Paxton e o seu irmão gémeo Colin decidem restaurar a propriedade, é inevitável que este segredo venha à tona.

A parte que mais me agradou nesta história foi, sem dúvida, o toque de magia em volta de Madam e o propósito original do Clube da Sociedade Feminina de Walls of Water, que se perdeu com o tempo, para vir a ser restaurado por Paxton.

Com tudo isto não quero dizer que o livro não é bom, no entanto, quando o comparo com outros da autora (de que tanto gosto), este fica aquém. Importa, no entanto, referir que este livro foi originalmente escrito em 2011, vários anos antes dos outros livros que li de Sarah Addison Allen, pelo que o seu amadurecimento como escritora poderá estar por detrás desta opinião. Acredito que sim.

De qualquer forma, não é este livro que me tira o entusiasmo com esta autora, um dos meus guilty pleasure literários, que irei continuar a seguir muito atentamente!

Opinião... Elizabeth Strout * Tudo É Possível


Elizabeth Strout destaca-se pela escrita e pela originalidade como constrói as suas narrativas.

Em capítulos separados que mais parecem pequenos contos, a autora vai desvendando as suas personagens, de forma quase crua. Aparentemente, estes diferentes capítulos nada têm a ver uns com os outros. No entanto, à medida que se prossegue com a leitura, é quase visual o efeito de uma espécie de bola/puzzle, que se vai fechando até ficar totalmente selada e a história terminada. Esta particularidade é o que me faz gostar dos livros da autora. Ir descobrindo os pequenos fios que ligam as personagens, ir entendendo as situações que deram origem a outras. É muito inteligente e quase uma piscadela de olho ao leitor, o que aprecio muito.

Contudo, neste livro em particular, a história de cada personagem não me interessou tanto. Não consegui criar conexão com nenhuma delas, o que me afastou da história no seu todo.

Em “Tudo é Possível”, continuamos a conhecer a localidade de Amgash, terra natal de Lucy Barton, que deu título ao primeiro volume desta série. Lucy e a sua família estão aqui representados como uma família muito pobre, quase à margem da sociedade. Igualmente presente está a inveja que Lucy provoca na actualidade, uma vez que reside em Nova Iorque e é escritora de renome. Pelo meio temos todas as intrigas próprias de uma pequena localidade, onde todos se conhecem e onde não é possível esconder segredos. E há muito sofrimento e dor em cada uma destas personagens! Este chega a ser palpável.

Trata-se de um livro pequeno, que se lê quase de uma assentada e que, pelo efeito que provoca no leitor, merece a sua leitura. Enquanto história de vida de personagens, este ficou um tanto aquém de outros que li da autora. No entanto, a série é composta por quatro volumes, pelo que fico a aguardar novos desenvolvimentos nos próximos.

Opinião... Clélie Avit * Estou Aqui


Apaixonei-me por este livro assim que vi a sua capa. É simplesmente maravilhosa, com uma imagem que faz todo o sentido na história e uma escolha de cores perfeita. Agora que o li, apaixonei-me também por esta história tão original e por estas personagens incríveis.

Elsa teve um trágico acidente na neve que a deixou em coma. Já se passaram vários meses, mas não há qualquer alteração no seu relatório clínico e os médicos dão indicação para desligar as máquinas. Mas nós leitores, sabemos o que eles não sabem. Sabemos que Elsa consegue ouvir tudo o que se passa à sua volta, embora essa seja a única função que tem activa.

Thibault tem vindo ao mesmo hospital onde Elsa está internada, com o intuito de visitar o seu irmão, sem nunca o conseguir fazer. A sua revolta ganha sempre, já que o irmão matou duas adolescentes de 14 anos, porque conduzia bêbado.

Certo dia, por lapso, Thibault entra no quarto de Elsa. Ela não costuma ter visitas, pelo que ele encontrou, de repente, um sítio onde se sente em paz. Já Elsa consegue ouvi-lo e sente, também ela, paz. Algo inesperado para os dois e que faz com que ele retorne, ao ponto de se apaixonar.

Temos aqui uma história triste, mas doce. Um amor verdadeiro baseado em muito pouco, que faz o leitor acreditar que o amor vai muito além do que pensamos ser. Algo superior e mágico.

O livro é construído com capítulos intercalados, pela voz de Elsa e de Thibault, o que lhe confere uma excelente dinâmica e duas perspectivas de cada acontecimento, enriquecendo-o. 

No final do livro fiquei com vontade de mais. Senti pena que terminasse, de ter que me afastar destas personagens tão doces. Foi, de facto, uma leitura que me surpreendeu pela positiva!

Opinião... Annie Lyons * O Clube de Leitura Antiguerra


São livros como este que me fazem gostar tanto de ler! Livros que nos transportam para outros lugares, neste caso, nem por isso mais felizes, mas ainda assim numa jornada incrível!

Achei tudo bom neste livro, a história, as personagens, o desenvolvimento da narrativa. E, embora a acção se passe quase toda em tempo de guerra e esta seja uma presença permanente, a verdade é que o foco do livro são as pessoas, a livraria, aquela localidade e a forma como os livros salvaram estas personagens.

Gertie é uma jovem mulher no início da história. Destemida e ousada, desafia o marido Harry a abrir com ela uma livraria. Se, de início, são vistos com alguma hesitação, principalmente porque Gertie é muito à frente do seu tempo, aos poucos conseguiram conquistar o seu lugar e fazer parte daquela comunidade. Mas nem tudo são rosas e a guerra está à porta. Para piorar o cenário, Harry morre de doença, deixando Gertie sozinha e um pouco perdida. Mas será ela a acolher em sua casa uma das muitas crianças trazidas da Alemanha para Inglaterra e a necessidade de cuidar da adolescente que lhe calhou, obriga-a a reagir e a agir.

Em cenário de guerra, a sua livraria e o armazém transformado em abrigo rapidamente representaram o escape a uma realidade demasiado dura. Será ali que o clube de leitura irá ter um papel fundamental em manter as pessoas mais calmas e unidas, transportando-as para as histórias que partilham e debatem.

Um livro que fala de livros e do papel da literatura é sempre bem-vindo. Quando alia uma escrita irrepreensível que teve a capacidade de me transportar para aquela época, temos o conjunto perfeito. Foi, para mim, um deleite ler este livro, senti cada personagem, senti o medo pelo desconhecido, o sofrimento pela perda, mas também a libertação em cada página.

Uma leitura que recomendo sem reservas!

Opinião... Sarah Addison Allen * Memória de Família - Lago Perdido

 


Sarah Addison Allen é um dos meus guilty pleasures literários. Ler os seus livros oferece-me conforto e quentinho no coração. Por isso mesmo, volto sempre a eles, um porto seguro depois de viagens mais arriscadas ou atribuladas…

Kate vive dias difíceis, a morte do seu marido, há cerca de um ano, levou-a para um lugar escuro de onde tem dificuldade em sair. Mas a sua filha Devin, de oito anos, precisa da sua atenção e será ela que irá descobrir, numa incursão ao sótão, um postal da tia-avó Eby que Kate nunca chegou a ver. Anos antes, Kate e a sua família visitaram o Lago Perdido, a propriedade de Eby, mas algo aconteceu entre a mãe e a tia-avó que as fez regressar a casa de forma algo brusca e antecipada. Ainda assim, as memórias de Kate do espaço e das pessoas são muito boas e ela sente que este postal é o sinal que precisava para fazer alguma coisa de diferente na sua vida.

O que ela não sabe é o quanto a sua tia-avó Eby está desesperada, à beira de vender o Lago Perdido, porque não tem condições financeiras nem psicológicas para o manter, depois da morte do seu marido. A ida de Kate para lá representará uma nova página na vida das duas!

A pequena Devin é adorável e confere à história o tempero necessário para me regalar. Adoro as personagens deste livro, pela sua fragilidade misturada com muita força. Adoro o lago e o seu misticismo, o aligátor, a força das personagens secundárias.

Para mim este livro foi uma releitura, mas não perdeu o encanto por conta disso. A cada página lida, relembrava situações, tal como revemos locais onde já fomos felizes. Foi uma leitura muito agradável e, quem sabe, daqui a uns anos, não retorno?

Opinião... Alba Donati * A Livraria na Colina

 


Como não ter curiosidade em ler um livro (de não ficção), que nos fala sobre a experiência de abrir uma livraria numa aldeia com apenas 180 habitantes?

Escrito na primeira pessoa, Alba Donati relata-nos a sua experiência. Mas este livro é muito mais do que isso. Em formato de quase diário, vai contando ao leitor o dia-a-dia de uma livreira peculiar, dos habitantes da terra, da família, das leituras e das encomendas.

É realmente interessante e, a dada altura, parece que já conhecemos Alda e os restantes habitantes e conseguimos visualizar esta bonita livraria que foi criada com recurso ao crowdfunding, antes da pandemia e que sofreu um desaire violento (um incêndio) logo nos primeiros meses de vida, que poderia ter sido o mote para desistir, mas que, pelo contrário, foi um bonito processo de união e solidariedade que tornou a recuperação possível.

Ter uma livraria é um sonho de vida. Julgo que será o de muitos leitores. Alba Donati ousou converter esse sonho em realidade e é uma inspiração. Perceber que é na diferença que se conquistam os clientes, que um pequeno negócio local precisa de ser original e de se reinventar. Adorei ver a lista diária de encomendas, e que deleite encontrar livros que também povoam a minha estante e já li.

Alba Donati é igualmente poetisa e isso percebe-se na forma como escreve. Este livro é de não ficção como referi, mas mais parece um romance com toques de magia perdidos por aqui e por ali. Uma leitura de conforto, que faz sonhar!

Opinião... Sarah Adler * As Cinzas da Sra. Nash


O título deste livro “As Cinzas da Sra. Nash” indicia-nos uma história trágica, no entanto, a sua capa remete-nos para um romance fofinho. E, a verdade, é que o livro é realmente uma mescla de ambas as situações!

Millie tem quase 30 anos e encontra-se, neste momento, a cumprir uma missão que se autoimpôs.  Para entendermos as suas razões, precisamos de recuar um pouco no tempo. Millie separa-se do seu namorado e acaba por ir viver com a vizinha do lado, uma senhora idosa com quem se dá muito bem. Esta vizinha, a Sra. Nash, acaba por lhe contar o quanto gostaria de rever um grande amor, uma mulher que conheceu durante a guerra, mas cujo preconceito não as deixou concretizar esse amor. Millie combina então ir em busca desta mulher, para que a Sra. Nash a possa ver novamente. Mas, infelizmente, ela morre antes que tal se concretize. Millie decide então empreender esta busca sozinha, apenas com as cinzas da Sra. Nash por companhia.

Quando se prepara para fazer a viagem de avião, acontecimentos vários levam-na a ter de viajar, de carro, com um homem que conhece vagamente e que não prima pela simpatia. Esta viagem será para eles uma odisseia, com peripécias várias, mas será também uma viagem de descoberta interior e de descoberta um do outro.

Temos aqui, portanto, romance, mal-entendidos, situações peculiares, e uma enorme amizade que move Millie e que adorei acompanhar! A forma como o livro termina, no que toca à Sra. Nash (ou às suas cinzas) é muito comovente.

O livro é fácil de ler, mas não é muito leve. A escrita faz-nos imergir nestas páginas e viver estes dias com Millie e Hollis, desejando-lhes um final feliz. São duas personagens frágeis, com uma armadura fictícia que se derruba ao primeiro sopro. Mas são igualmente duas personagens bom coração que só nos fazem querer que tudo lhes corra de feição. Confesso que terminei o livro com a sensação de que vou sentir saudades deles! Um romance fofo, mas, ao mesmo tempo, sério. E respeitoso do tema. Por isso gostei tanto dele!

Opinião... Fernando Correia * O Homem Que Não Tinha Idade


“O Homem Que Não Tinha Idade” é João, que ao chegar aos seus 83 anos se vê abandonado num lar, após insistência dos filhos. Um homem ainda cheio de vitalidade e de vontade de viver, sente que a atitude dos filhos é muito mais de interesse (desresponsabilizando-os) do que preocupação consigo.

Fernando Correia apresenta-nos esta história em duas partes. Na primeira, iremos conhecer João, numa retrospectiva pela sua vida fora, começando nos bonitos 83 anos e recuando até aos 10 anos. O autor mostra-nos um homem real, com virtudes e defeitos, com bonitas acções e outras mais condenáveis. Mas sempre sem usar subterfúgios.

Na segunda parte, partimos deste lar que está a aprisionar João, mas iremos vê-lo a ganhar asas e voar. E é esta segunda parte que faz deste livro algo tão especial. Porque nos mostra um caminho, uma luz no final do túnel, uma nota de esperança.

Fernando Correia escreve de uma forma muito bonita, quase poética, com muito cuidado no uso das palavras, o que transforma este livro numa leitura que é um deleite. A sua forma de representar o amor pela sua mulher Joana, por exemplo, é simplesmente lindo! A construção da narrativa foi igualmente muito bem conseguida, pela forma como quase nos leva para um buraco escuro, para depois dar a volta e mostrar um lado mais luminoso da vida.

Este livro é relativamente pequeno, mas muito intenso. Em poucas páginas senti que fiquei a conhecer João como se de um familiar se tratasse. Curioso, não é? Este foi o primeiro livro que li do autor, mas não será certamente o último.

Opinião... Julie Lawson Timmer * Cinco Dias de Vida


“Cinco Dias de Vida” é daqueles livros que partem o coração. Mas ainda assim foi uma leitura que gostei muito!

Feito o aviso prévio, importa explicar o que são estes cinco dias de vida. E a resposta é: depende da perspectiva… Para Mara, são os seus últimos cinco dias. Ela sofre da doença de Hutchinson, uma doença sem cura, que vai destruindo as células, fazendo a pessoa perder todas as suas capacidades. Mara decidiu que quando sentisse que a doença a estava a tornar dependente de outros e a deixar de permitir que tomasse as suas próprias decisões, se mataria no seu aniversário seguinte. E o evento que despoletou esta decisão aconteceu, pelo que lhe restam agora cinco dias de vida. Mas Mara não está sozinha, ela é casada com Tom, um marido incrível e juntos adoptaram uma menina, que é a luz das suas vidas. Durante estes cinco dias, vamos acompanhar todos os pensamentos de Mara, todas as dúvidas, todas as despedidas, todas as hesitações. E dá tanto que pensar…

Já para Scott, estes mesmos cinco dias representam os últimos com o seu homenzinho, o menino que ele e a mulher adoptaram temporariamente, já que a mãe dele foi presa por ano ano. Scott afeiçoou-se ao menino e não consegue antever os dias que se seguirão à sua partida.

Tanto que cinco dias podem representar na vida de uma pessoa, quando decisões definitivas e extremadas são necessárias…

O livro está dividido precisamente pelos cinco dias, que são, acima de tudo, intensos. É impossível ficar indiferente ao sofrimento destas nossas personagens. Gostei muito da forma como a autora entregou a história, sem alaridos, mas com todas as palavras. E as cenas onde Mara vai percebendo que o seu corpo já não é o era, são simplesmente angustiantes.

Não é um livro feliz, não é um livro que doura a realidade, mas é um livro que coloca questões muito pertinentes, que dá respostas consistentes e que faz o leitor dar valor ao dia de amanhã. Por isso mesmo, embora aqui e ali tenha achado que poderia ser um pouco menos descritivo, foi uma leitura que me enriqueceu e de que gostei muito.

Opinião... F. Scott Fitzgerald * O Grande Gatsby


O Grande Gatsby dispensa apresentações. Todos conhecem Gatsby, embora quase ninguém saiba quem ele é realmente, as suas origens ou de onde vem a sua fortuna. Mais ainda, ninguém sabe qual o propósito das suas festas tão concorridas… Mas nós leitores, teremos o privilégio de conhecer todas as razões e, digo desde já, são algo inesperadas…

F. Scott Fitzgerald criou aqui um retrato de uma sociedade pós-guerra, no seio das famílias mais abastadas. A ironia que o autor utiliza na sua narrativa, em jeito subtil, é o que de melhor encontrei neste livro. A escrita é descomplicada e fluída, algo que também me surpreendeu.

Gatsby vive na mansão ao lado da casa onde Nick está a passar uma temporada. Nick é o nosso narrador e viverá momentos de tensão graças a este seu vizinho misterioso. Do outro lado da baía vive a sua prima Daisy e o marido Tom. Todas as interacções entre estas personagens são tensas e Nick sente a necessidade de conhecer melhor cada um deles.

Embora perceba que o livro terá sido um marco numa época onde a prosperidade vivia paredes meias com os destroços de guerra, tenho alguma dificuldade em encontrar nele a grandiosidade de um clássico. A verdade é que o livro não terá sido um enorme sucesso na altura em que foi lançado, só anos mais tarde, sendo reeditado, granjeou o sucesso. Talvez porque transmitia, em grande medida, o grande sonho americano.

No cômputo geral, é uma leitura que atrai, porque a dúvida quanto às razões por detrás das acções de Gatsby têm esse poder. E, confesso, o final revelou-se algo inesperado. Em certas partes senti que a narrativa tem cortes, fazendo-me perder um pouco o fio à meada, como se de cenas soltas se tratasse.

Este livro faz parte dos 1001 livros para ler antes de morrer. Pela minha parte, posso colocar um visto na sua entrada, com bastante satisfação!

Opinião... Freida McFadden * O Recluso

 


Freida McFadden volta a atacar!

Desta feita, transporta-nos para a vida de Brooke, uma mulher com um histórico complicado. Há 10 anos, ela esteve envolvida num incidente que lhe mudou o rumo de vida. Ela estava em casa de Shane, o seu namorado na altura, com mais quatro amigos. De repente, dois dos amigos aparecem mortos, e cada um dos restantes quatro não sabe em quem pode confiar e qual deles será o assassino, já que estão numa casa isolada, sem luz devido a uma tempestade e sem rede telefónica. Quando Brooke é atacada, embora não consiga ver, sente que é Shane e será o seu testemunho em tribunal que o irá condenar a prisão perpétua.

10 anos passaram, e os pais de Brooke morreram num acidente de automóvel. Ela regressa à terra Natal de onde tinha fugido depois dos acontecimentos trágicos, mas só encontra trabalho como enfermeira na prisão onde Shane está preso. No dia em que ele é ferido por companheiros de cela, e precisa dos cuidados de Brooke, é o dia em que as dúvidas a começam a assaltar. Até porque outro dos presentes naquele dia era o seu melhor amigo, Tim, de quem Brooke nunca suspeitou, até agora…

Este livro é incrivelmente viciante de ler. E o mais interessante é que a autora nos entrega quase todos os dados no início do livro, o que me levou a questionar o que mais estaria para vir… Mas o desenvolvimento da história está bem conseguido e o final conseguiu surpreender-me! Não foi cenário que tenha colocado como hipótese, mas faz todo o sentido.

A dada altura da leitura, coloquei todos em causa, temos aqui muitas (todas?) personagens pouco confiáveis… E é isso que dá interesse à narrativa, este jogo do gato e do rato, do é ou parece ser, que brinca com o leitor de forma inteligente, levando-o por um caminho aparentemente seguro, para de repente virar sem aviso. Gosto muito disso e é o que procuro num thriller! Isso e a capacidade de surpreender, sem cair em incoerências. Também isso foi aqui conseguido. Não sendo uma história totalmente original, este livro cumpre o seu propósito de entreter e agitar o leitor.

Opinião... Naoki Urasawa * Monster Volume 1

 


Monster dá início a uma série de 9 volumes de mangá, que nos contam a história do Dr. Tenma, um médico japonês que decide ir para a Alemanha, em busca de conhecimentos e progressão na carreira.

A sua qualidade enquanto neurocirurgião começa a destacar-se, chamando a atenção de todos, incluindo o director do hospital que, aproveitando-se das suas capacidades e da sua vontade de crescer, faz dele o seu braço direito (exigindo dele muito mais do que o esperado). O facto de o Dr. Tenma namorar com a filha do director coloca-o ainda mais numa posição delicada, já que não quer contrariar nem o chefe nem o futuro sogro.

No entanto, a partir do momento em que lhe são impostas decisões que vão contra os seus princípios, o nosso doutor começa a questionar-se se é esse o caminho que quer seguir. E tudo se complica quando decide que não… afinal, para ele, todas as vidas valem o mesmo e não há prioridades consoante os interesses.

Paralelamente, temos vários assassinatos de casais, e num deles duas crianças são atacadas. Se a menina apenas fica em choque, o menino sofre um ferimento gravíssimo na cabeça e acaba por ser tratado pelo Dr. Tenma, mal sabendo ele o quanto as suas vidas se irão cruzar no futuro…

Este mangá diferencia-se pela temática, muito bem abordada. Senti na pele este confronto interior entre o que é o correcto e o que são as ordens superiores. Todas as questões deontológicas e morais tornaram a leitura muito mais rica. Sofri (mas apoiei) o Dr. Tenma, pelo caminho que escolheu seguir. Por outro lado, o tom quase de thriller, no que toca aos assassinatos, criaram uma nova história dentro da narrativa principal, genialmente entrelaçadas.

O desenho de Naoki Urasawa é muito limpo e expressivo. Adorei deter-me nos pormenores, muitos deles autoexplicativos. Alturas houve em que as falas quase podiam ser dispensadas, de tal forma os sentimentos estão bem representados.

Gostei muito deste mangá, que sendo o primeiro livro de nove, obviamente me deixou “pendurada” (e ansiosa!) à espera do volume dois. Que venha ele!

Opinião... Miye Lee * O Grande Armazém dos Sonhos


“O Grande Armazém dos Sonhos” pauta-se pela originalidade!

Original na temática que aborda, mas também original na forma como a conta. Falando na forma, confesso que a mesma me causou uma estranheza inicial, que me obrigou a reler algumas partes, porque me senti meio perdida na narrativa. Mas assim que entendi que a explicação vem depois, tudo se tornou mais claro. Ainda assim, se algo tenho a apontar a este livro, prende-se com este ponto, senti que não foi uma leitura fluída, tendo requerido uma atenção extra da minha parte. De qualquer forma, valeu totalmente este esforço!

A autora, Miye Lee, coreana, deu por si a pensar que os seres humanos passam um terço da vida a dormir. Aparentemente algo sem sentido, já que tirando o descanso, nada mais é retirado de um tempo do qual não temos sequer consciência. E quis desbravar este território, usando para isso os sonhos.

Assim, neste livro vamos viver numa cidade que existe apenas nos sonhos. Ela tem habitantes locais, que trabalham lá e tem os visitantes, todos aqueles que ao dormir, procuram sonhar. Emily é uma das residentes, que acabou de conseguir emprego no Grande Armazém dos Sonhos, a mais famosa loja de venda deste produto, constituída por 7 pisos, cada um deles dedicado a um tipo diferente de sonhos. Para Emily tudo será uma novidade e uma descoberta. Será igualmente para nós, leitores, que a acompanhamos.

O livro levanta questões muito pertinentes que fazem pensar. A forma como introduz pensamentos mais elaborados e mensagens mais complexas no meio da narrativa está muito bem conseguido e o toque de Tim Burton que encontrei ao longo de toda a narrativa deu-lhe, sem dúvida, outro encanto! Aliás, este livro daria, certamente, um excelente filme!

Opinião... Kasie West "Empresto-te o Meu Coração"

 


Adjectivo para este livro? Fofinho! História, personagens, animais, tudo é fofinho em “Empresto-te o meu coração”.

E dou por mim a pensar no quanto teria gostado de ler este livro quando era adolescente… sortudas as meninas de hoje, que têm acesso a livros tão amorosos como este, já que na minha altura a oferta era muito reduzida. Mas a verdade é que, mesmo não estando nessa faixa etária, gostei muito desta leitura. Diria até que, dentro deste género literário, foi dos melhores livros que li nos últimos tempos!

Os nossos protagonistas são Wren e Ashler. Ela é introvertida e tenta-se proteger ao máximo, criando regras para um eventual namorado, o que obviamente está a dificultar a tarefa de arranjar um. Ele é um nerd bom coração que procura uma namorada através da internet.

E é precisamente no dia do encontro de Ashler com a sua pretendente que os vamos conhecer. Junto com Ashler vem o seu amigo (ou não), a filmar tudo para que o flop deste encontro viralize na sua página do Tiktok. Wren encontra-se no mesmo café, e indignada ao assistir a esta cena decide intervir, fazendo-se passar pela tal pretendente.

O encontro entre os dois revela-se bastante mais positivo do que o antecipado e Ashler acaba por se voluntariar a trabalhar no mesmo abrigo de animais onde Wren trabalha, o que os irá aproximar. Mais ainda quando lhes é incumbida a tarefa de procurar quem adopte o cão que há mais tempo reside no canil, um pitbull que apenas se dá bem com este par…

A escrita é muito fluída e oferece-nos uma narrativa muito apelativa que aquece o coração. Na minha opinião este livro cumpre todos os propósitos a que se propõe. Trazer uma história amorosa, com personagens fofinhas, numa leitura agradável, sem ser fútil e ainda diverte. O facto de termos o abrigo dos animais traz uma outra dimensão à história, na minha opinião muito bem conseguida. As personagens secundárias, são também elas bem posicionadas, criando dinâmicas divertidas. É um facto, esta dupla já conquistou o seu lugar no meu coração literário!

Opinião... Mafalda Santos * Enquanto o Fim Não Vem


Mas que livro este! Mafalda Santos conseguiu pautar pela diferença, num universo tão vasto, onde tanta história já foi inventada. Confesso que não esperava este livro em forma de matrioska 😊

Não quero falar muito sobre a história, porque a diversão está mesmo na descoberta. Basta dizer que temos um escritor de sucesso, o Afonso, que tem já uma série publicada e uma legião de fãs, em plena crise criativa, a ser continuamente pressionado pela editora. Para complementar, a sua vida pessoal não é propriamente um conto de fadas. E temos ainda a história inacabada que este escritor já conseguiu colocar no papel, um caso de homicídio por resolver, onde o famoso inspector Lobo volta a ter o seu papel principal.

O resto é todo um novelo que se enrola cada vez mais, não parecendo ter solução à vista. E aqui, tenho de confessar que temi que o final pudesse desiludir, já que não vislumbrava uma solução coerente e completa. Mas ela existiu!

Mafalda Santos é também encenadora, o que terá certamente contribuído para a forma como mexe com as suas personagens de forma tão inteligente. Quase é possível visualizar as cordinhas das marionetas a serem manipuladas com tanta mestria.

A verdade é que o livro resulta numa leitura altamente viciante (a partir de um dado momento, não consegui mais pousar o livro, precisava de saber mais e mais) e terminei-o com a sensação de ter entrado numa montanha-russa, ainda meio tonta, com o cabelo em desalinho e muita vontade de repetir a viagem! 

Opinião... Evie Woods * A Livraria Perdida

 


“A Livraria Perdida” é daqueles livros que mais do que falar sobre ele, sobre o que nos conta, importa senti-lo, viver cada página como se estivéssemos presentes na narrativa. De repente, torna-se em algo familiar e confortável, mesmo quando assistimos a cenas improváveis. Difícil transmitir este sentimento por palavras, por isso o melhor é mesmo pegar nele e ler (e apreciar!).

De qualquer forma, e de um modo apenas resumido, temos um livro contado em dois tempos com três personagens principais. No presente temos Martha e Henry, ela foge de um lar onde impera a violência doméstica e consegue encontrar emprego na casa de uma idosa que a contrata como governanta, casa esta que se situa mesmo ao lado da morada que Henry procura como tendo sido o local de uma livraria perdida. É desta forma que se conhecem e se envolvem na busca pela história deste antigo local.

No passado, temos Opaline, uma jovem mulher que foge de uma família que não a acarinha, querendo antes casá-la por interesse. Depois de várias peripécias, Opaline vê-se a viver em Dublin e a tomar conta de um antiquário onde pretende incluir uma sessão de livros antigos, a sua grande paixão e especialidade.

Obviamente que em livros com dois espaços temporais, a dada altura as duas histórias terão um fio condutor que faz o puzzle ficar completo. Este não é excepção e a ligação é muito interessante. Confesso que não a antecipei, antes de se tornar demasiado óbvio.

A escrita deste livro é o ponto chave. Ela é descomplicada, mas rica, conseguindo transmitir ao leitor uma aura tão necessária a esta narrativa. O intercalar do presente e do passado é algo que eu gosto sempre de encontrar, dá uma outra dinâmica ao mesmo tempo que desperta ainda mais a minha curiosidade. Depois temos o tema, como não gostar de um livro que fala de livros e livrarias? Por fim, o toque de magia, na dose certa, na minha opinião, que torna tudo ainda mais encantado!

Opinião... Hisashi Kashiwai * Os Mistérios do Restaurante Kamogawa


Imaginem um restaurante muito peculiar. Em primeiro lugar, ninguém que passe na rua dará por ele, porque está totalmente incógnito. Depois, neste restaurante não há menu, porque quem o encontra vem com um objectivo muito bem definido: reencontrar uma refeição que há muito significou algo para essa pessoa.

Nagare e Koishi são pai e filha e são eles que gerem o restaurante Kamogawa. Nagare tem a capacidade de recriar pratos com base em pistas escassas, pistas estas que Koishi recolhe junto dos clientes de forma exímia. Mas o que cada cliente procura, na verdade, não é o prato em específico, mas a recordação que o mesmo acarreta. A comida que a mãe falecida fazia, o prato preferido do ex-marido, uma refeição feita num determinado local, com uma determinada pessoa. De tal forma, que a experiência de provar os pratos de Nagare se torna muito próxima de uma consulta de psicologia.

Este livro é composto por seis histórias, cada uma delas referente a um cliente e a um prato específico. À semelhança de outros livros deste género, o livro peca pela repetição de estrutura em cada uma das seis histórias. Determinadas explicações, depois da primeira vez são desnecessárias nas restantes. Mas sabendo que as histórias foram publicadas avulso no seu original, percebe-se esta repetição. Numa colectânea como é este livro, torna-se um pouco cansativo.

“Os Mistérios do Restaurante Kamogawa” torna-se numa leitura de conforto, quentinha, pelas conclusões que cada narrativa oferece. A leitura profunda que Nagare consegue fazer de cada um dos seus clientes é incrível e uma boa surpresa. Adorei os comentários finais entre pai e filha que encerram cada capítulo. Fiquei igualmente intrigada com o gato que faz raras, mas perceptíveis, aparições, deixando-me a questionar qual o seu papel nesta magia. Por outro lado, as referências gastronómicas são muitas e capazes de deixar água na boca!

Por último, um apontamento para a presença da mãe de Koishi, falecida, mas sempre presente na vida desta família. É muito bonito de assistir.

Opinião... Keum Suk Gendry-Kim * A Espera


Existem livros que chamam por mim, sem que perceba exactamente porquê. Foi o caso deste “A Espera”, soube que o queria ler assim que o vi. Não conhecia a autora, não sabia a sua nacionalidade, a capa pouco me explicou, não li a sinopse. É curiosa esta relação com os livros, não é? Finda a leitura, fico muito feliz com este “chamamento”, já que adorei cada bocadinho desta novela gráfica.

Não sei quanto de autobiográfico contém, mas de qualquer forma, retrata a vida de uma jovem mulher na Coreia do Sul, nos dias de hoje, com dificuldades em suportar uma renda em Seul, o que a obriga a mudar-se para uma zona mais rural, acarretando o peso de deixar Gwijá, a mãe idosa, na cidade, já que esta se recusa a acompanhar a filha. Mas retrata também a vida de outra mulher jovem, há muitos anos, que se viu obrigada a fugir da Coreia do Norte para a Coreia do Sul quando a guerra teve início. Casada há poucos anos e com dois filhos pequenos, Gwijá teve o infortúnio de se perder do marido e do filho mais velho durante esta fuga. Este acontecimento trágico irá marcá-la toda uma vida e hoje, com 92 anos, ainda acalenta a esperança de que a cruz vermelha lhe encontre o filho perdido há mais de 70 anos. Mais ainda depois de ver uma amiga reencontrar a irmã, renovando-lhe a esperança.

As ilustrações são a preto e branco, com um traço simples. E, no entanto, passaram-me tanto sentimento! A dada altura da fuga senti um impacto imenso com os acontecimentos, retratados de forma original e sensível, que me tocaram.

Todos sabemos o quanto a Coreia do Norte é um país fechado ao mundo, por isso mesmo, livros que nos mostram um bocadinho dessa realidade passada são sempre muito úteis. Aqui aliamos conhecimento e sentimentos, num cocktail que resulta numa leitura muito interessante e que recomendo sem reservas.