Opinião... Jenny Colgan * O Café Junto ao Mar


Não se apreciar um livro de um autor que se adora é uma dor na alma… Jenny Colgan é das minhas autoras de romances “fofinhos” preferida. Tem a capacidade de criar narrativas amorosas, que me envolvem e me transportam para o lugar onde se passa a acção (sempre locais que desejo visitar) e personagens que aprecio e que torço muito que tudo lhes corra bem.

“O Café Junto ao Mar” não me ofereceu tudo isto. Achei toda a história mais “morna”, pouco original e não senti o esperado carinho por Flora, a personagem principal.

Acredito que parte deste sentimento se deva também à tradução deste livro. Existem inúmeras frases que me fazem pouco sentido, na forma como estão construídas. Isto obrigou-me a reler várias passagens, perdendo o ritmo de leitura e o entusiasmo, confesso.

Flora vive em Londres e trabalha num escritório de advogados. Mas ela é escocesa, mais precisamente de uma ilha muito a Norte, chamada Mure. Vive, portanto, afastada da família e da localidade que a viu crescer. Isto porque desde o funeral da mãe, se sentiu mal acolhida e decidiu partir, deixando para trás o pai e os irmãos, entregues à vida rural de sempre.

Quis o destino que um cliente da empresa onde trabalha quisesse uma profissional escocesa para tratar de um assunto pendente, precisamente em Mure. A escolha foi óbvia, apesar da pouca experiência, Flora era a única funcionária que cumpria o requisito, e vê-se, repentinamente, de volta à sua terra Natal.

Primeiro veio o choque do confronto com a realidade que escolheu deixar para trás, para a seguir os laços de sangue falarem mais alto e, é desta forma que Flora se vê de novo no seio da família, enquanto tenta ajudar o cliente a ser aceite naquela ilha pouco receptiva a estranhos.

Para temperar tudo isto, temos ainda a paixoneta que Flora tem há muito tempo pelo seu chefe, um mulherengo de sucesso da grande Londres, que, ao ver-se naquela ilha, percebe que existe mais vida para além da que rodeia o seu umbigo.

Gostava muito de ter gostado mais deste livro. Não aconteceu. Faltou-me empatia com as personagens, faltou-me entusiasmo com a história. Ainda assim, a parte que mais retive e apreciei foi, sem dúvida, a que toca às tradições escocesas, tão diferentes e originais e muito bem retratadas neste livro.

De qualquer forma, um livro não faz uma autora e Jenny Colgan permanece inabalável no seu lugar de autora de romances fofinhos no meu coração.

Opinião... Kristin Hannah * As Mulheres

Se me pedirem uma lista de autores(as) preferidos, certamente Kristin Hannah fará parte da mesma. Já li inúmeros livros da autora e entre eles encontram-se alguns dos meus preferidos de sempre, como “O Rouxinol” ou “A Grande Solidão”.

Esta premissa eleva de imediato a fasquia, mas Kristin Hannah nunca desilude! “As Mulheres” é um livro e tanto. Há aqui de tudo: uma boa história, uma pesquisa apurada do que foi a presença feminina na Guerra do Vietname, personagens extraordinárias e um romance bonito, embora dramático.

Fiquei muito surpreendida e, até indignada, com o que descobri neste livro. E terão sido, talvez, estes os sentimentos que impulsionaram a autora a contar esta história. Porque a verdade é que embora as mulheres tenham estado presentes na Guerra do Vietname, como enfermeiras ou médicas, salvando inúmeras vidas, nunca foram reconhecidas nem valorizadas por tal. Mais do que isso, após a Guerra, todos afirmavam que não tinham estado presentes e chegava a ser uma vergonha falar do assunto.

Vergonha foi também o que sentiu a família de Frankie, a nossa protagonista. Ela decidiu alistar-se depois de perder o irmão para esta guerra. A ida do irmão, ao contrário da sua, foi motivo de orgulho, visto como um herói. Mas Frankie decide seguir o seu coração e dá início a esta odisseia, nunca esperando as condições com que se deparou. Mas ela revela-se muito mais forte do que aparenta e transforma-se numa enfermeira de topo.

O livro é composto por duas partes, a primeira passada no Vietname, pesadíssima. Assistimos, juntamente com Frankie, a todo o tipo de atrocidades e à perda de vidas de forma brutal. Vale-lhe o sentimento de dever cumprido e a amizade para toda a vida com duas outras mulheres. O apoio entre elas é o que lhes permite sobreviver física e mentalmente. Na segunda parte do livro, acompanhamos a nossa protagonista no seu regresso aos EUA. Ao choque com uma realidade totalmente inesperada e adversa. Os próprios pais não a conseguem encarar, preferindo mentir e afastar-se. Perdida, Frankie terá de aprender a viver com esta nova realidade. A ajuda das suas duas amigas será uma vez mais essencial…

Este livro está cheio de grandes mensagens, mas a maior de todas, aquela que retenho e admiro é o poder da amizade.  A relação entre estas três mulheres é fabulosa e é bastante compreensível que tais laços tenham sido criados e solidificados.

Kristin Hannah é uma exímia contadora de histórias. Bem documentada, consegue colocar o leitor em qualquer cenário, seja ele idílico ou de guerra. A sua narrativa é vívida e permanece (e permanecerá) na minha mente. Há também lugar a romance aqui e, embora na minha opinião, não seja de todo o foco de “As Mulheres”, foi igualmente bem construído. Mais um livro muito duro, mas brilhante desta autora que tanto admiro!

Opinião... Rosária Casquinha da Silva * Da Janela Vejo o Sandokan


Ler “Da Janela Vejo o Sandokan” foi uma experiência de leitura diferente das que costumo fazer. Trata-se de um livro de short stories, que representaram para mim uma pausa no dia-a-dia, como aquele momento em que paramos para beber um café.

Por falar em café, esta bebida é uma presença marcante neste livro, bastante associada à janela que dá título ao livro, já que permite os momentos de reflexão e (até) divagação que resultam nestas pequenas histórias.

Há aqui um pouco de tudo, muitas memórias, saúde mental, momentos divertidos ou recordações de viagens. Imagino a autora na sua rotina diária a deparar-se com uma determinada situação que servirá como gatilho para algo que precisa de contar.

Temos muito em poucas páginas, porque temos o importante. Mensagens que a Rosária quis transmitir através das suas bonitas palavras, porque escreve realmente de forma bonita e cuidada, sem ser em demasia. Eu li o livro todo de seguida, mas é um livro que pode perfeitamente estar algures pela casa, e sempre que nos cruzarmos com ele, ler uma passagem. A tal pausa tantas vezes necessária!

Gostei particularmente da história “Palpitite”, que, pelo título, me indiciou uma coisa, mas que me levou por um caminho diferente do esperado e, no entanto, que gostei tanto! A leitura deste livro representou sempre uma pausa muito apreciada, obviamente que gostei mais (e me revi mais) numas histórias do que noutras, o que me parece perfeitamente normal, já que todos temos a nossa própria experiência que se reflete na forma como lemos.


 

Opinião... Ann Napolitano * Olá, Linda


Por vezes a relação de um leitor com um livro é muito curiosa e passa por várias fases. Foi o que me aconteceu com “Olá, Linda”. Comecei a sua leitura com muito entusiasmo e expectativas, depois de tanto ouvir opiniões muito positivas, para me deparar com uma leitura que não me agarrou de imediato. Até mais de meio do livro achei a história bem construída, mas sem me empolgar, o que esmoreceu o meu entusiasmo inicial.

A partir de determinada altura, ganha um novo fôlego e segue em crescendo até ao final. Mas ainda assim, precisei que passassem uns dias para sentir a força desta história em mim. Porque hoje, dou por mim a reviver momentos desta narrativa e a relembrar estas personagens, tão bem construídas.

Porque sim, a força desta história está totalmente centrada nas suas personagens. A família Padavano e todos os que com ela convivem são aqui dissecados e expostos desde pequenos até à meia-idade, passando por inúmeros eventos traumáticos.

Julia, Sylvie, Cecelia e Emeline são as quatro irmãs Padavano. O pai, Charlie, vive num outro hemisfério, onde as responsabilidades de adulto não existem. Já a mãe, Rose, tem sonhos que quer ver concretizados através das filhas e é o motor desta família.

William vive só e sente-se abandonado, depois da família ter sido destruída pela morte da sua irmã mais velha, quando ele era ainda um bebé. William irá encontrar em Julia uma companheira e na sua família, o aconchego que falta na sua. Até que os desejos de uns não coincidem com os de outros e os confrontos se tornam inevitáveis, abrindo brechas profundas nas suas relações.

Adorei poder acompanhar a vida destas personagens ao longo de tantos anos e, até, diferentes gerações. Sentir a sua evolução (nem sempre positiva), o seu amadurecimento. Os obstáculos que a vida lhes impôs, tornaram-nos quase humanos, reais.

A escrita de Ann Napolitano tem uma característica que gosto bastante. Lança uma determinada situação sem contexto imediato, para, no capítulo seguinte, explicar o que lhe deu origem. É uma interacção muito interessante com o leitor.

E, como disse no início, este livro tem vindo a infiltrar-se na minha pele com o passar dos dias e a consolidar o espaço que lhe é devido. Não é frequente acontecer, mas não deixa de ser uma sensação muito interessante!

Opinião... Sarah Addison Allen * Memórias de Família - A Árvore dos Segredos

 


Vou começar esta minha opinião pelo final e dar, desde já, as más novas… “A Árvore dos Segredos” foi o livro que menos gostei de todos os que li da autora (e já foram uns quantos).

Dito isto, importa explicar as razões. Reflectindo um pouco no assunto, diria que são essencialmente duas: primeiro, a história leva imenso tempo a arrancar, ao fim de muitas páginas lidas, muito pouco tinha acontecido, o que acaba por desmotivar a leitura. Ainda assim, se depois oferecesse uma narrativa cativante e emocionante, este início seria facilmente esquecido. Não foi o caso, infelizmente. O que me leva à segunda razão: achei toda a história muito rasa, muito óbvia, sem grandes elementos de originalidade, que me puxassem para a leitura.

Nesta história temos duas netas e duas avós: Willa e a avó Georgie, actualmente num estado avançado de perda de memória e Paxton e a avó Agatha, a viver num lar, mas com o mesmo feitio rebiteso de sempre. Georgie era descendente de uma família rica que perdeu tudo e Agatha viveu e vive no meio da riqueza. Mas elas eram grandes amigas e partilharam um grande segredo. Segredo esse que ficou encerrado na casa de Blue Ridge Madam, entretanto ao abandono. Mas quando Paxton e o seu irmão gémeo Colin decidem restaurar a propriedade, é inevitável que este segredo venha à tona.

A parte que mais me agradou nesta história foi, sem dúvida, o toque de magia em volta de Madam e o propósito original do Clube da Sociedade Feminina de Walls of Water, que se perdeu com o tempo, para vir a ser restaurado por Paxton.

Com tudo isto não quero dizer que o livro não é bom, no entanto, quando o comparo com outros da autora (de que tanto gosto), este fica aquém. Importa, no entanto, referir que este livro foi originalmente escrito em 2011, vários anos antes dos outros livros que li de Sarah Addison Allen, pelo que o seu amadurecimento como escritora poderá estar por detrás desta opinião. Acredito que sim.

De qualquer forma, não é este livro que me tira o entusiasmo com esta autora, um dos meus guilty pleasure literários, que irei continuar a seguir muito atentamente!

Opinião... Elizabeth Strout * Tudo É Possível


Elizabeth Strout destaca-se pela escrita e pela originalidade como constrói as suas narrativas.

Em capítulos separados que mais parecem pequenos contos, a autora vai desvendando as suas personagens, de forma quase crua. Aparentemente, estes diferentes capítulos nada têm a ver uns com os outros. No entanto, à medida que se prossegue com a leitura, é quase visual o efeito de uma espécie de bola/puzzle, que se vai fechando até ficar totalmente selada e a história terminada. Esta particularidade é o que me faz gostar dos livros da autora. Ir descobrindo os pequenos fios que ligam as personagens, ir entendendo as situações que deram origem a outras. É muito inteligente e quase uma piscadela de olho ao leitor, o que aprecio muito.

Contudo, neste livro em particular, a história de cada personagem não me interessou tanto. Não consegui criar conexão com nenhuma delas, o que me afastou da história no seu todo.

Em “Tudo é Possível”, continuamos a conhecer a localidade de Amgash, terra natal de Lucy Barton, que deu título ao primeiro volume desta série. Lucy e a sua família estão aqui representados como uma família muito pobre, quase à margem da sociedade. Igualmente presente está a inveja que Lucy provoca na actualidade, uma vez que reside em Nova Iorque e é escritora de renome. Pelo meio temos todas as intrigas próprias de uma pequena localidade, onde todos se conhecem e onde não é possível esconder segredos. E há muito sofrimento e dor em cada uma destas personagens! Este chega a ser palpável.

Trata-se de um livro pequeno, que se lê quase de uma assentada e que, pelo efeito que provoca no leitor, merece a sua leitura. Enquanto história de vida de personagens, este ficou um tanto aquém de outros que li da autora. No entanto, a série é composta por quatro volumes, pelo que fico a aguardar novos desenvolvimentos nos próximos.

Opinião... Clélie Avit * Estou Aqui


Apaixonei-me por este livro assim que vi a sua capa. É simplesmente maravilhosa, com uma imagem que faz todo o sentido na história e uma escolha de cores perfeita. Agora que o li, apaixonei-me também por esta história tão original e por estas personagens incríveis.

Elsa teve um trágico acidente na neve que a deixou em coma. Já se passaram vários meses, mas não há qualquer alteração no seu relatório clínico e os médicos dão indicação para desligar as máquinas. Mas nós leitores, sabemos o que eles não sabem. Sabemos que Elsa consegue ouvir tudo o que se passa à sua volta, embora essa seja a única função que tem activa.

Thibault tem vindo ao mesmo hospital onde Elsa está internada, com o intuito de visitar o seu irmão, sem nunca o conseguir fazer. A sua revolta ganha sempre, já que o irmão matou duas adolescentes de 14 anos, porque conduzia bêbado.

Certo dia, por lapso, Thibault entra no quarto de Elsa. Ela não costuma ter visitas, pelo que ele encontrou, de repente, um sítio onde se sente em paz. Já Elsa consegue ouvi-lo e sente, também ela, paz. Algo inesperado para os dois e que faz com que ele retorne, ao ponto de se apaixonar.

Temos aqui uma história triste, mas doce. Um amor verdadeiro baseado em muito pouco, que faz o leitor acreditar que o amor vai muito além do que pensamos ser. Algo superior e mágico.

O livro é construído com capítulos intercalados, pela voz de Elsa e de Thibault, o que lhe confere uma excelente dinâmica e duas perspectivas de cada acontecimento, enriquecendo-o. 

No final do livro fiquei com vontade de mais. Senti pena que terminasse, de ter que me afastar destas personagens tão doces. Foi, de facto, uma leitura que me surpreendeu pela positiva!

Opinião... Annie Lyons * O Clube de Leitura Antiguerra


São livros como este que me fazem gostar tanto de ler! Livros que nos transportam para outros lugares, neste caso, nem por isso mais felizes, mas ainda assim numa jornada incrível!

Achei tudo bom neste livro, a história, as personagens, o desenvolvimento da narrativa. E, embora a acção se passe quase toda em tempo de guerra e esta seja uma presença permanente, a verdade é que o foco do livro são as pessoas, a livraria, aquela localidade e a forma como os livros salvaram estas personagens.

Gertie é uma jovem mulher no início da história. Destemida e ousada, desafia o marido Harry a abrir com ela uma livraria. Se, de início, são vistos com alguma hesitação, principalmente porque Gertie é muito à frente do seu tempo, aos poucos conseguiram conquistar o seu lugar e fazer parte daquela comunidade. Mas nem tudo são rosas e a guerra está à porta. Para piorar o cenário, Harry morre de doença, deixando Gertie sozinha e um pouco perdida. Mas será ela a acolher em sua casa uma das muitas crianças trazidas da Alemanha para Inglaterra e a necessidade de cuidar da adolescente que lhe calhou, obriga-a a reagir e a agir.

Em cenário de guerra, a sua livraria e o armazém transformado em abrigo rapidamente representaram o escape a uma realidade demasiado dura. Será ali que o clube de leitura irá ter um papel fundamental em manter as pessoas mais calmas e unidas, transportando-as para as histórias que partilham e debatem.

Um livro que fala de livros e do papel da literatura é sempre bem-vindo. Quando alia uma escrita irrepreensível que teve a capacidade de me transportar para aquela época, temos o conjunto perfeito. Foi, para mim, um deleite ler este livro, senti cada personagem, senti o medo pelo desconhecido, o sofrimento pela perda, mas também a libertação em cada página.

Uma leitura que recomendo sem reservas!

Opinião... Sarah Addison Allen * Memória de Família - Lago Perdido

 


Sarah Addison Allen é um dos meus guilty pleasures literários. Ler os seus livros oferece-me conforto e quentinho no coração. Por isso mesmo, volto sempre a eles, um porto seguro depois de viagens mais arriscadas ou atribuladas…

Kate vive dias difíceis, a morte do seu marido, há cerca de um ano, levou-a para um lugar escuro de onde tem dificuldade em sair. Mas a sua filha Devin, de oito anos, precisa da sua atenção e será ela que irá descobrir, numa incursão ao sótão, um postal da tia-avó Eby que Kate nunca chegou a ver. Anos antes, Kate e a sua família visitaram o Lago Perdido, a propriedade de Eby, mas algo aconteceu entre a mãe e a tia-avó que as fez regressar a casa de forma algo brusca e antecipada. Ainda assim, as memórias de Kate do espaço e das pessoas são muito boas e ela sente que este postal é o sinal que precisava para fazer alguma coisa de diferente na sua vida.

O que ela não sabe é o quanto a sua tia-avó Eby está desesperada, à beira de vender o Lago Perdido, porque não tem condições financeiras nem psicológicas para o manter, depois da morte do seu marido. A ida de Kate para lá representará uma nova página na vida das duas!

A pequena Devin é adorável e confere à história o tempero necessário para me regalar. Adoro as personagens deste livro, pela sua fragilidade misturada com muita força. Adoro o lago e o seu misticismo, o aligátor, a força das personagens secundárias.

Para mim este livro foi uma releitura, mas não perdeu o encanto por conta disso. A cada página lida, relembrava situações, tal como revemos locais onde já fomos felizes. Foi uma leitura muito agradável e, quem sabe, daqui a uns anos, não retorno?

Opinião... Alba Donati * A Livraria na Colina

 


Como não ter curiosidade em ler um livro (de não ficção), que nos fala sobre a experiência de abrir uma livraria numa aldeia com apenas 180 habitantes?

Escrito na primeira pessoa, Alba Donati relata-nos a sua experiência. Mas este livro é muito mais do que isso. Em formato de quase diário, vai contando ao leitor o dia-a-dia de uma livreira peculiar, dos habitantes da terra, da família, das leituras e das encomendas.

É realmente interessante e, a dada altura, parece que já conhecemos Alda e os restantes habitantes e conseguimos visualizar esta bonita livraria que foi criada com recurso ao crowdfunding, antes da pandemia e que sofreu um desaire violento (um incêndio) logo nos primeiros meses de vida, que poderia ter sido o mote para desistir, mas que, pelo contrário, foi um bonito processo de união e solidariedade que tornou a recuperação possível.

Ter uma livraria é um sonho de vida. Julgo que será o de muitos leitores. Alba Donati ousou converter esse sonho em realidade e é uma inspiração. Perceber que é na diferença que se conquistam os clientes, que um pequeno negócio local precisa de ser original e de se reinventar. Adorei ver a lista diária de encomendas, e que deleite encontrar livros que também povoam a minha estante e já li.

Alba Donati é igualmente poetisa e isso percebe-se na forma como escreve. Este livro é de não ficção como referi, mas mais parece um romance com toques de magia perdidos por aqui e por ali. Uma leitura de conforto, que faz sonhar!

Opinião... Sarah Adler * As Cinzas da Sra. Nash


O título deste livro “As Cinzas da Sra. Nash” indicia-nos uma história trágica, no entanto, a sua capa remete-nos para um romance fofinho. E, a verdade, é que o livro é realmente uma mescla de ambas as situações!

Millie tem quase 30 anos e encontra-se, neste momento, a cumprir uma missão que se autoimpôs.  Para entendermos as suas razões, precisamos de recuar um pouco no tempo. Millie separa-se do seu namorado e acaba por ir viver com a vizinha do lado, uma senhora idosa com quem se dá muito bem. Esta vizinha, a Sra. Nash, acaba por lhe contar o quanto gostaria de rever um grande amor, uma mulher que conheceu durante a guerra, mas cujo preconceito não as deixou concretizar esse amor. Millie combina então ir em busca desta mulher, para que a Sra. Nash a possa ver novamente. Mas, infelizmente, ela morre antes que tal se concretize. Millie decide então empreender esta busca sozinha, apenas com as cinzas da Sra. Nash por companhia.

Quando se prepara para fazer a viagem de avião, acontecimentos vários levam-na a ter de viajar, de carro, com um homem que conhece vagamente e que não prima pela simpatia. Esta viagem será para eles uma odisseia, com peripécias várias, mas será também uma viagem de descoberta interior e de descoberta um do outro.

Temos aqui, portanto, romance, mal-entendidos, situações peculiares, e uma enorme amizade que move Millie e que adorei acompanhar! A forma como o livro termina, no que toca à Sra. Nash (ou às suas cinzas) é muito comovente.

O livro é fácil de ler, mas não é muito leve. A escrita faz-nos imergir nestas páginas e viver estes dias com Millie e Hollis, desejando-lhes um final feliz. São duas personagens frágeis, com uma armadura fictícia que se derruba ao primeiro sopro. Mas são igualmente duas personagens bom coração que só nos fazem querer que tudo lhes corra de feição. Confesso que terminei o livro com a sensação de que vou sentir saudades deles! Um romance fofo, mas, ao mesmo tempo, sério. E respeitoso do tema. Por isso gostei tanto dele!

Opinião... Fernando Correia * O Homem Que Não Tinha Idade


“O Homem Que Não Tinha Idade” é João, que ao chegar aos seus 83 anos se vê abandonado num lar, após insistência dos filhos. Um homem ainda cheio de vitalidade e de vontade de viver, sente que a atitude dos filhos é muito mais de interesse (desresponsabilizando-os) do que preocupação consigo.

Fernando Correia apresenta-nos esta história em duas partes. Na primeira, iremos conhecer João, numa retrospectiva pela sua vida fora, começando nos bonitos 83 anos e recuando até aos 10 anos. O autor mostra-nos um homem real, com virtudes e defeitos, com bonitas acções e outras mais condenáveis. Mas sempre sem usar subterfúgios.

Na segunda parte, partimos deste lar que está a aprisionar João, mas iremos vê-lo a ganhar asas e voar. E é esta segunda parte que faz deste livro algo tão especial. Porque nos mostra um caminho, uma luz no final do túnel, uma nota de esperança.

Fernando Correia escreve de uma forma muito bonita, quase poética, com muito cuidado no uso das palavras, o que transforma este livro numa leitura que é um deleite. A sua forma de representar o amor pela sua mulher Joana, por exemplo, é simplesmente lindo! A construção da narrativa foi igualmente muito bem conseguida, pela forma como quase nos leva para um buraco escuro, para depois dar a volta e mostrar um lado mais luminoso da vida.

Este livro é relativamente pequeno, mas muito intenso. Em poucas páginas senti que fiquei a conhecer João como se de um familiar se tratasse. Curioso, não é? Este foi o primeiro livro que li do autor, mas não será certamente o último.

Opinião... Julie Lawson Timmer * Cinco Dias de Vida


“Cinco Dias de Vida” é daqueles livros que partem o coração. Mas ainda assim foi uma leitura que gostei muito!

Feito o aviso prévio, importa explicar o que são estes cinco dias de vida. E a resposta é: depende da perspectiva… Para Mara, são os seus últimos cinco dias. Ela sofre da doença de Hutchinson, uma doença sem cura, que vai destruindo as células, fazendo a pessoa perder todas as suas capacidades. Mara decidiu que quando sentisse que a doença a estava a tornar dependente de outros e a deixar de permitir que tomasse as suas próprias decisões, se mataria no seu aniversário seguinte. E o evento que despoletou esta decisão aconteceu, pelo que lhe restam agora cinco dias de vida. Mas Mara não está sozinha, ela é casada com Tom, um marido incrível e juntos adoptaram uma menina, que é a luz das suas vidas. Durante estes cinco dias, vamos acompanhar todos os pensamentos de Mara, todas as dúvidas, todas as despedidas, todas as hesitações. E dá tanto que pensar…

Já para Scott, estes mesmos cinco dias representam os últimos com o seu homenzinho, o menino que ele e a mulher adoptaram temporariamente, já que a mãe dele foi presa por ano ano. Scott afeiçoou-se ao menino e não consegue antever os dias que se seguirão à sua partida.

Tanto que cinco dias podem representar na vida de uma pessoa, quando decisões definitivas e extremadas são necessárias…

O livro está dividido precisamente pelos cinco dias, que são, acima de tudo, intensos. É impossível ficar indiferente ao sofrimento destas nossas personagens. Gostei muito da forma como a autora entregou a história, sem alaridos, mas com todas as palavras. E as cenas onde Mara vai percebendo que o seu corpo já não é o era, são simplesmente angustiantes.

Não é um livro feliz, não é um livro que doura a realidade, mas é um livro que coloca questões muito pertinentes, que dá respostas consistentes e que faz o leitor dar valor ao dia de amanhã. Por isso mesmo, embora aqui e ali tenha achado que poderia ser um pouco menos descritivo, foi uma leitura que me enriqueceu e de que gostei muito.

Opinião... F. Scott Fitzgerald * O Grande Gatsby


O Grande Gatsby dispensa apresentações. Todos conhecem Gatsby, embora quase ninguém saiba quem ele é realmente, as suas origens ou de onde vem a sua fortuna. Mais ainda, ninguém sabe qual o propósito das suas festas tão concorridas… Mas nós leitores, teremos o privilégio de conhecer todas as razões e, digo desde já, são algo inesperadas…

F. Scott Fitzgerald criou aqui um retrato de uma sociedade pós-guerra, no seio das famílias mais abastadas. A ironia que o autor utiliza na sua narrativa, em jeito subtil, é o que de melhor encontrei neste livro. A escrita é descomplicada e fluída, algo que também me surpreendeu.

Gatsby vive na mansão ao lado da casa onde Nick está a passar uma temporada. Nick é o nosso narrador e viverá momentos de tensão graças a este seu vizinho misterioso. Do outro lado da baía vive a sua prima Daisy e o marido Tom. Todas as interacções entre estas personagens são tensas e Nick sente a necessidade de conhecer melhor cada um deles.

Embora perceba que o livro terá sido um marco numa época onde a prosperidade vivia paredes meias com os destroços de guerra, tenho alguma dificuldade em encontrar nele a grandiosidade de um clássico. A verdade é que o livro não terá sido um enorme sucesso na altura em que foi lançado, só anos mais tarde, sendo reeditado, granjeou o sucesso. Talvez porque transmitia, em grande medida, o grande sonho americano.

No cômputo geral, é uma leitura que atrai, porque a dúvida quanto às razões por detrás das acções de Gatsby têm esse poder. E, confesso, o final revelou-se algo inesperado. Em certas partes senti que a narrativa tem cortes, fazendo-me perder um pouco o fio à meada, como se de cenas soltas se tratasse.

Este livro faz parte dos 1001 livros para ler antes de morrer. Pela minha parte, posso colocar um visto na sua entrada, com bastante satisfação!

Opinião... Freida McFadden * O Recluso

 


Freida McFadden volta a atacar!

Desta feita, transporta-nos para a vida de Brooke, uma mulher com um histórico complicado. Há 10 anos, ela esteve envolvida num incidente que lhe mudou o rumo de vida. Ela estava em casa de Shane, o seu namorado na altura, com mais quatro amigos. De repente, dois dos amigos aparecem mortos, e cada um dos restantes quatro não sabe em quem pode confiar e qual deles será o assassino, já que estão numa casa isolada, sem luz devido a uma tempestade e sem rede telefónica. Quando Brooke é atacada, embora não consiga ver, sente que é Shane e será o seu testemunho em tribunal que o irá condenar a prisão perpétua.

10 anos passaram, e os pais de Brooke morreram num acidente de automóvel. Ela regressa à terra Natal de onde tinha fugido depois dos acontecimentos trágicos, mas só encontra trabalho como enfermeira na prisão onde Shane está preso. No dia em que ele é ferido por companheiros de cela, e precisa dos cuidados de Brooke, é o dia em que as dúvidas a começam a assaltar. Até porque outro dos presentes naquele dia era o seu melhor amigo, Tim, de quem Brooke nunca suspeitou, até agora…

Este livro é incrivelmente viciante de ler. E o mais interessante é que a autora nos entrega quase todos os dados no início do livro, o que me levou a questionar o que mais estaria para vir… Mas o desenvolvimento da história está bem conseguido e o final conseguiu surpreender-me! Não foi cenário que tenha colocado como hipótese, mas faz todo o sentido.

A dada altura da leitura, coloquei todos em causa, temos aqui muitas (todas?) personagens pouco confiáveis… E é isso que dá interesse à narrativa, este jogo do gato e do rato, do é ou parece ser, que brinca com o leitor de forma inteligente, levando-o por um caminho aparentemente seguro, para de repente virar sem aviso. Gosto muito disso e é o que procuro num thriller! Isso e a capacidade de surpreender, sem cair em incoerências. Também isso foi aqui conseguido. Não sendo uma história totalmente original, este livro cumpre o seu propósito de entreter e agitar o leitor.

Opinião... Naoki Urasawa * Monster Volume 1

 


Monster dá início a uma série de 9 volumes de mangá, que nos contam a história do Dr. Tenma, um médico japonês que decide ir para a Alemanha, em busca de conhecimentos e progressão na carreira.

A sua qualidade enquanto neurocirurgião começa a destacar-se, chamando a atenção de todos, incluindo o director do hospital que, aproveitando-se das suas capacidades e da sua vontade de crescer, faz dele o seu braço direito (exigindo dele muito mais do que o esperado). O facto de o Dr. Tenma namorar com a filha do director coloca-o ainda mais numa posição delicada, já que não quer contrariar nem o chefe nem o futuro sogro.

No entanto, a partir do momento em que lhe são impostas decisões que vão contra os seus princípios, o nosso doutor começa a questionar-se se é esse o caminho que quer seguir. E tudo se complica quando decide que não… afinal, para ele, todas as vidas valem o mesmo e não há prioridades consoante os interesses.

Paralelamente, temos vários assassinatos de casais, e num deles duas crianças são atacadas. Se a menina apenas fica em choque, o menino sofre um ferimento gravíssimo na cabeça e acaba por ser tratado pelo Dr. Tenma, mal sabendo ele o quanto as suas vidas se irão cruzar no futuro…

Este mangá diferencia-se pela temática, muito bem abordada. Senti na pele este confronto interior entre o que é o correcto e o que são as ordens superiores. Todas as questões deontológicas e morais tornaram a leitura muito mais rica. Sofri (mas apoiei) o Dr. Tenma, pelo caminho que escolheu seguir. Por outro lado, o tom quase de thriller, no que toca aos assassinatos, criaram uma nova história dentro da narrativa principal, genialmente entrelaçadas.

O desenho de Naoki Urasawa é muito limpo e expressivo. Adorei deter-me nos pormenores, muitos deles autoexplicativos. Alturas houve em que as falas quase podiam ser dispensadas, de tal forma os sentimentos estão bem representados.

Gostei muito deste mangá, que sendo o primeiro livro de nove, obviamente me deixou “pendurada” (e ansiosa!) à espera do volume dois. Que venha ele!

Opinião... Miye Lee * O Grande Armazém dos Sonhos


“O Grande Armazém dos Sonhos” pauta-se pela originalidade!

Original na temática que aborda, mas também original na forma como a conta. Falando na forma, confesso que a mesma me causou uma estranheza inicial, que me obrigou a reler algumas partes, porque me senti meio perdida na narrativa. Mas assim que entendi que a explicação vem depois, tudo se tornou mais claro. Ainda assim, se algo tenho a apontar a este livro, prende-se com este ponto, senti que não foi uma leitura fluída, tendo requerido uma atenção extra da minha parte. De qualquer forma, valeu totalmente este esforço!

A autora, Miye Lee, coreana, deu por si a pensar que os seres humanos passam um terço da vida a dormir. Aparentemente algo sem sentido, já que tirando o descanso, nada mais é retirado de um tempo do qual não temos sequer consciência. E quis desbravar este território, usando para isso os sonhos.

Assim, neste livro vamos viver numa cidade que existe apenas nos sonhos. Ela tem habitantes locais, que trabalham lá e tem os visitantes, todos aqueles que ao dormir, procuram sonhar. Emily é uma das residentes, que acabou de conseguir emprego no Grande Armazém dos Sonhos, a mais famosa loja de venda deste produto, constituída por 7 pisos, cada um deles dedicado a um tipo diferente de sonhos. Para Emily tudo será uma novidade e uma descoberta. Será igualmente para nós, leitores, que a acompanhamos.

O livro levanta questões muito pertinentes que fazem pensar. A forma como introduz pensamentos mais elaborados e mensagens mais complexas no meio da narrativa está muito bem conseguido e o toque de Tim Burton que encontrei ao longo de toda a narrativa deu-lhe, sem dúvida, outro encanto! Aliás, este livro daria, certamente, um excelente filme!

Opinião... Kasie West "Empresto-te o Meu Coração"

 


Adjectivo para este livro? Fofinho! História, personagens, animais, tudo é fofinho em “Empresto-te o meu coração”.

E dou por mim a pensar no quanto teria gostado de ler este livro quando era adolescente… sortudas as meninas de hoje, que têm acesso a livros tão amorosos como este, já que na minha altura a oferta era muito reduzida. Mas a verdade é que, mesmo não estando nessa faixa etária, gostei muito desta leitura. Diria até que, dentro deste género literário, foi dos melhores livros que li nos últimos tempos!

Os nossos protagonistas são Wren e Ashler. Ela é introvertida e tenta-se proteger ao máximo, criando regras para um eventual namorado, o que obviamente está a dificultar a tarefa de arranjar um. Ele é um nerd bom coração que procura uma namorada através da internet.

E é precisamente no dia do encontro de Ashler com a sua pretendente que os vamos conhecer. Junto com Ashler vem o seu amigo (ou não), a filmar tudo para que o flop deste encontro viralize na sua página do Tiktok. Wren encontra-se no mesmo café, e indignada ao assistir a esta cena decide intervir, fazendo-se passar pela tal pretendente.

O encontro entre os dois revela-se bastante mais positivo do que o antecipado e Ashler acaba por se voluntariar a trabalhar no mesmo abrigo de animais onde Wren trabalha, o que os irá aproximar. Mais ainda quando lhes é incumbida a tarefa de procurar quem adopte o cão que há mais tempo reside no canil, um pitbull que apenas se dá bem com este par…

A escrita é muito fluída e oferece-nos uma narrativa muito apelativa que aquece o coração. Na minha opinião este livro cumpre todos os propósitos a que se propõe. Trazer uma história amorosa, com personagens fofinhas, numa leitura agradável, sem ser fútil e ainda diverte. O facto de termos o abrigo dos animais traz uma outra dimensão à história, na minha opinião muito bem conseguida. As personagens secundárias, são também elas bem posicionadas, criando dinâmicas divertidas. É um facto, esta dupla já conquistou o seu lugar no meu coração literário!

Opinião... Mafalda Santos * Enquanto o Fim Não Vem


Mas que livro este! Mafalda Santos conseguiu pautar pela diferença, num universo tão vasto, onde tanta história já foi inventada. Confesso que não esperava este livro em forma de matrioska 😊

Não quero falar muito sobre a história, porque a diversão está mesmo na descoberta. Basta dizer que temos um escritor de sucesso, o Afonso, que tem já uma série publicada e uma legião de fãs, em plena crise criativa, a ser continuamente pressionado pela editora. Para complementar, a sua vida pessoal não é propriamente um conto de fadas. E temos ainda a história inacabada que este escritor já conseguiu colocar no papel, um caso de homicídio por resolver, onde o famoso inspector Lobo volta a ter o seu papel principal.

O resto é todo um novelo que se enrola cada vez mais, não parecendo ter solução à vista. E aqui, tenho de confessar que temi que o final pudesse desiludir, já que não vislumbrava uma solução coerente e completa. Mas ela existiu!

Mafalda Santos é também encenadora, o que terá certamente contribuído para a forma como mexe com as suas personagens de forma tão inteligente. Quase é possível visualizar as cordinhas das marionetas a serem manipuladas com tanta mestria.

A verdade é que o livro resulta numa leitura altamente viciante (a partir de um dado momento, não consegui mais pousar o livro, precisava de saber mais e mais) e terminei-o com a sensação de ter entrado numa montanha-russa, ainda meio tonta, com o cabelo em desalinho e muita vontade de repetir a viagem! 

Opinião... Evie Woods * A Livraria Perdida

 


“A Livraria Perdida” é daqueles livros que mais do que falar sobre ele, sobre o que nos conta, importa senti-lo, viver cada página como se estivéssemos presentes na narrativa. De repente, torna-se em algo familiar e confortável, mesmo quando assistimos a cenas improváveis. Difícil transmitir este sentimento por palavras, por isso o melhor é mesmo pegar nele e ler (e apreciar!).

De qualquer forma, e de um modo apenas resumido, temos um livro contado em dois tempos com três personagens principais. No presente temos Martha e Henry, ela foge de um lar onde impera a violência doméstica e consegue encontrar emprego na casa de uma idosa que a contrata como governanta, casa esta que se situa mesmo ao lado da morada que Henry procura como tendo sido o local de uma livraria perdida. É desta forma que se conhecem e se envolvem na busca pela história deste antigo local.

No passado, temos Opaline, uma jovem mulher que foge de uma família que não a acarinha, querendo antes casá-la por interesse. Depois de várias peripécias, Opaline vê-se a viver em Dublin e a tomar conta de um antiquário onde pretende incluir uma sessão de livros antigos, a sua grande paixão e especialidade.

Obviamente que em livros com dois espaços temporais, a dada altura as duas histórias terão um fio condutor que faz o puzzle ficar completo. Este não é excepção e a ligação é muito interessante. Confesso que não a antecipei, antes de se tornar demasiado óbvio.

A escrita deste livro é o ponto chave. Ela é descomplicada, mas rica, conseguindo transmitir ao leitor uma aura tão necessária a esta narrativa. O intercalar do presente e do passado é algo que eu gosto sempre de encontrar, dá uma outra dinâmica ao mesmo tempo que desperta ainda mais a minha curiosidade. Depois temos o tema, como não gostar de um livro que fala de livros e livrarias? Por fim, o toque de magia, na dose certa, na minha opinião, que torna tudo ainda mais encantado!

Opinião... Hisashi Kashiwai * Os Mistérios do Restaurante Kamogawa


Imaginem um restaurante muito peculiar. Em primeiro lugar, ninguém que passe na rua dará por ele, porque está totalmente incógnito. Depois, neste restaurante não há menu, porque quem o encontra vem com um objectivo muito bem definido: reencontrar uma refeição que há muito significou algo para essa pessoa.

Nagare e Koishi são pai e filha e são eles que gerem o restaurante Kamogawa. Nagare tem a capacidade de recriar pratos com base em pistas escassas, pistas estas que Koishi recolhe junto dos clientes de forma exímia. Mas o que cada cliente procura, na verdade, não é o prato em específico, mas a recordação que o mesmo acarreta. A comida que a mãe falecida fazia, o prato preferido do ex-marido, uma refeição feita num determinado local, com uma determinada pessoa. De tal forma, que a experiência de provar os pratos de Nagare se torna muito próxima de uma consulta de psicologia.

Este livro é composto por seis histórias, cada uma delas referente a um cliente e a um prato específico. À semelhança de outros livros deste género, o livro peca pela repetição de estrutura em cada uma das seis histórias. Determinadas explicações, depois da primeira vez são desnecessárias nas restantes. Mas sabendo que as histórias foram publicadas avulso no seu original, percebe-se esta repetição. Numa colectânea como é este livro, torna-se um pouco cansativo.

“Os Mistérios do Restaurante Kamogawa” torna-se numa leitura de conforto, quentinha, pelas conclusões que cada narrativa oferece. A leitura profunda que Nagare consegue fazer de cada um dos seus clientes é incrível e uma boa surpresa. Adorei os comentários finais entre pai e filha que encerram cada capítulo. Fiquei igualmente intrigada com o gato que faz raras, mas perceptíveis, aparições, deixando-me a questionar qual o seu papel nesta magia. Por outro lado, as referências gastronómicas são muitas e capazes de deixar água na boca!

Por último, um apontamento para a presença da mãe de Koishi, falecida, mas sempre presente na vida desta família. É muito bonito de assistir.

Opinião... Keum Suk Gendry-Kim * A Espera


Existem livros que chamam por mim, sem que perceba exactamente porquê. Foi o caso deste “A Espera”, soube que o queria ler assim que o vi. Não conhecia a autora, não sabia a sua nacionalidade, a capa pouco me explicou, não li a sinopse. É curiosa esta relação com os livros, não é? Finda a leitura, fico muito feliz com este “chamamento”, já que adorei cada bocadinho desta novela gráfica.

Não sei quanto de autobiográfico contém, mas de qualquer forma, retrata a vida de uma jovem mulher na Coreia do Sul, nos dias de hoje, com dificuldades em suportar uma renda em Seul, o que a obriga a mudar-se para uma zona mais rural, acarretando o peso de deixar Gwijá, a mãe idosa, na cidade, já que esta se recusa a acompanhar a filha. Mas retrata também a vida de outra mulher jovem, há muitos anos, que se viu obrigada a fugir da Coreia do Norte para a Coreia do Sul quando a guerra teve início. Casada há poucos anos e com dois filhos pequenos, Gwijá teve o infortúnio de se perder do marido e do filho mais velho durante esta fuga. Este acontecimento trágico irá marcá-la toda uma vida e hoje, com 92 anos, ainda acalenta a esperança de que a cruz vermelha lhe encontre o filho perdido há mais de 70 anos. Mais ainda depois de ver uma amiga reencontrar a irmã, renovando-lhe a esperança.

As ilustrações são a preto e branco, com um traço simples. E, no entanto, passaram-me tanto sentimento! A dada altura da fuga senti um impacto imenso com os acontecimentos, retratados de forma original e sensível, que me tocaram.

Todos sabemos o quanto a Coreia do Norte é um país fechado ao mundo, por isso mesmo, livros que nos mostram um bocadinho dessa realidade passada são sempre muito úteis. Aqui aliamos conhecimento e sentimentos, num cocktail que resulta numa leitura muito interessante e que recomendo sem reservas.

Opinião... Tânia Ganho * A Lucidez do Amor


“A Lucidez do Amor” oferece ao leitor uma época da vida de Paula, que podia ser a de qualquer mulher casada com um militar enviado para a guerra. No caso de Paula, o seu marido Michael é enviado para Duchambé, no Tajiquistão, como parte da Força Aérea Francesa, ao serviço da guerra no Afeganistão.

Paula sofre em silêncio a ausência do marido, intensificada ainda mais porque tinha sido mãe há três semanas, aquando da sua partida. Tudo se mistura no dia-a-dia de Paula, a maternidade recente e inexperiente, a ansiedade pela vida de Michael constantemente exposta a perigos, o medo de estar sozinha numa pequena localidade perdida algures em França. Nem a presença da mãe a acalma e todos os dias são um peso na vida desta jovem mulher.

Ao longo destas páginas vamos conhecer Paula, a forma como conheceu e se apaixonou por Michael, mas também a história dos seus pais, Álvaro e Binta. O pai português conheceu a mãe durante a guerra na Guiné-Bissau e Paula nasceu deste amor. A sua mãe necessitou de se adaptar a uma nova realidade quando acompanhou o marido de volta a Portugal, mas é uma mulher inteligente e tranquila com a vida, ainda que muito do seu passado ainda se reflita no seu ser.

O que mais me impressionou neste livro foi a sensação de ansiedade permanente que consegue transmitir. A cada nova página temi as más notícias, junto com Paula. Senti os seus nervos, as suas angústias. No que toca a passar a emoção, este livro tem nota máxima!

Por outro lado, o facto de se passar ao longo dos dias da missão de Michael, acabam por o tornar um pouco repetitivo. Embora entenda a intenção, porque assim eram os dias deste jovem casal, repetitivos, quase como se cumprissem uma pena, à espera do dia da libertação, para mim, enquanto leitora, revelou-se um pouco desmotivante. Ainda assim, é um excelente retrato dos efeitos colaterais de uma guerra e tem uma escrita exemplar, como já nos habituou Tânia Ganho!  

Opinião... Marjane Satrapi * Mulher Vida Liberdade


 

Marjane Satrapi já deu provas da sua qualidade em obras como “Persépolis” ou “Bordados”. Esta autora iraniana traça um retrato da sociedade do seu país de forma crua e frontal, principalmente no que toca à realidade das mulheres, deixando expostas verdades incómodas, mas tão necessárias…

“Mulher Vida Liberdade” tornou-se no grito de revolta das mulheres (e, pela primeira vez, dos homens também), depois da morte de Mahsa Amini, espancada pela polícia dos bons costumes, apenas porque não estava a usar o véu de forma correcta. A sua morte, em 2022, desencadeou um movimento inédito de revolta, que não quer deixar calar as atrocidades que se praticam contra as mulheres no Irão, em nome do que intitulam ser os bons costumes.

Marjane decidiu fazer este livro, com o auxílio de três conhecedores da história do Irão: Farid Vahid, politólogo, Jean-Pierre Perrin, repórter e Abbas Milani, historiador e director de estudos Iranianos. E fê-lo com dois objectivos: se por um lado pretende dar a conhecer o que se passa no Irão ainda nos dias de hoje, por outro, e uma vez que acompanha tudo isto do lado de fora, quer dar força a quem vive diariamente esta opressão, mostrando-lhes que não estão sozinhos e que a opinião pública mundial está cada vez mais desperta. Por isso mesmo, este livro é ilustrado por inúmeros artistas, a convite de Marjane, sendo a sua maioria de países ocidentais.

O livro é composto por textos explicativos escritos pelos três homens que referi acima e de seguida ilustrados por inúmeros artistas. Todos eles com o seu estilo próprio, a sua identidade, mas com um objectivo comum. Dar a conhecer uma realidade muito fechada ao mundo.

O facto de o livro ter sido construído a várias mãos, dá-lhe uma dinâmica incrível. Foi uma excelente ideia, porque transmite ao leitor a sensação de ouvir vários pontos de vista, várias formas de abordar um mesmo tema, tornando-nos mais conhecedores do mesmo e mais atentos aos pormenores.

Temos aqui uma obra literária que acima de tudo pretende ser de alerta e de informação e, em ambos os casos, o objectivo é sobejamente cumprido. Marjane Satrapi tem uma visão alargada do assunto e muita coragem. Coragem de expor, expondo-se, em nome de um bem maior. Em nome das mulheres, para que não tenham o fim que Mahsa, infelizmente, teve.

Opinião... David Machado * Índice Médio de Felicidade

 


Um dos meus objectivos para 2024 é conhecer mais autores portugueses. David Machado estava, sem dúvida, na lista. Dele só tinha lido um livro infantil, “O Tubarão na Banheira”, mas este “Índice Médio de Felicidade” despertava a minha curiosidade há muito! Mais ainda depois de ter estado com o autor na Feira do Livro de Lisboa para autografar o meu exemplar.

No entanto, não foi um início de leitura fácil, levei o meu tempo a entrar na narrativa, na forma de escrita diferente, nas personagens, mas este foi um livro que me soube conquistar a cada página, deixando-me com uma sensação de saudade quando o terminei, tal foi a forma como me apeguei a cada uma destas personagens. Engraçado o poder da palavra escrita, não é?

Aqui vamos conhecer três amigos. O nosso narrador, Daniel, que se encontra desempregado há algum tempo, o que obrigou a família (mulher e dois filhos) a mudarem-se para o norte, para junto dos pais dela, enquanto ele batalha por reconstruir a sua vida profissional. Para Daniel é imprescindível que os seus conhecimentos e experiência sejam valorizados.

Temos depois o Almodôvar, que se encontra preso depois de um assalto a uma bomba de gasolina. Deixa mulher e um filho perdidos. A sua mulher vê-se obrigada a ter vários trabalhos para pagar todas as contas, com implicação directa no acompanhamento do filho adolescente.

O terceiro amigo é Xavier, que se encontra fechado em casa há 13 anos e que é motivo de preocupação por parte dos amigos. Mas é também Xavier que irá despertar a curiosidade e interesse para o índice médio de felicidade. Há algum tempo que ele estuda exaustivamente este índice e, se de início, é levado com cepticismo e até algum gozo, acaba por influenciar também Daniel. Mais ainda quando o site que criaram que tinha por objectivo ser uma plataforma de entreajuda, não tem qualquer sucesso, mas certo dia surge um pedido de ajuda que não os deixa indiferentes…

Temos aqui uma história sobre amizade, sobre valores, sobre a medida da felicidade. Este livro tem conceitos muito interessantes, que fazem reflectir. Tem igualmente personagens peculiares, mas muito bem construídas, imperfeitas, mas de quem queremos gostar. Não apreciei tanto do uso frequente de asneiras, que na minha opinião seriam várias vezes evitáveis. Mas tem um final muito bom! Adorei o final!


Opinião... Colleen Hoover e Tarryn Fisher * Nunca Jamais


Aqui está um livro sobre o qual tenho dificuldade em formular uma opinião. Passei metade do livro a dizer que estava a gostar muito do mote, mas que o todo iria depender (em muito) do desenlace. Uma resolução para este problema, que fosse pouco credível, iria arruinar a leitura.

A verdade é que terminei o livro sem saber exactamente se estou convencida com o dito desenlace. Mas, por outro lado, a verdade é que foi uma leitura que me entusiasmou e me manteve sempre presa.

Falando do mote. Charlie acorda de um desmaio, na escola, no meio das colegas. Mas percebe que não sabe quem é, nem onde está, muito menos quem a rodeia. Com o passar dos minutos percebe que um colega, chamado Silas, que será o seu namorado, vive a mesma realidade. O que lhes estará a acontecer? E porquê apenas a eles?

É a busca por uma resposta a esta questão que os leva, juntos, a tentar descobrir quem são e o que foi o seu passado. E nós, leitores, iremos acompanhar. A cada 48 horas eles voltam a perder a memória de tudo o que viveram até aí, e quando se começam a aperceber disso, pelas pistas que vão encontrando, o plano passa por deixar registo de tudo o que descobriram até então para não voltarem novamente ao início.

A escrita deste livro é muito fluída, fácil de ler. Há muita acção e diálogos o que se traduz numa leitura rápida e descomplicada.

Como referi, o desenlace de toda esta trama era, para mim, o mais importante, e se aceitar que determinadas coisas são possíveis (no âmbito do realismo mágico, diria), então parece-me que o livro é bastante lógico e interessante. Daí as minhas dúvidas quanto a ele. Mas julgo que prefiro aceitar e aproveitar, porque a realidade é que a leitura foi muito prazerosa e estes dois, a Charlie e o Silas, conquistaram um lugarzinho especial no meu coração de leitora! 

Opinião... Ted Adams e Jorge Coelho * The Great Gatsby The Essential Graphic Novel



Pois é, tantos anos de leituras e nunca tinha lido o Grande Gatsby… Bom, na verdade, continuo a não ter lido, já que desta feita li a sua adaptação para novela gráfica, pela mão do talentoso Jorge Coelho!

E que talento! Cada página deste livro é uma obra de arte, um deleite para os olhos, com todos os detalhes e um traço muito pessoal. Adorei cada um dos pormenores e da forma como utiliza as cores, que nos remete de imediato para a época em que se passa a acção.

Quanto à história, pareceu-me uma adaptação fiel do clássico de F. Scott Fitzgerald e deixou-me com muita vontade de ir ler o livro original. Eu li a novela gráfica na sua versão original, em inglês, mas confesso que não foi uma leitura fácil, porque o inglês utilizado está obviamente adaptado à época e obrigou-me a recorrer ao tradutor várias vezes. Senti que isto me atrapalhou um pouco o entendimento detalhado das acções, embora tenha compreendido a história global.

À parte este pequeno (grande) detalhe, apreciei bastante esta leitura, que me deu a conhecer Jay Gatsby, o misterioso homem que habita uma mansão deslumbrante e onde todos os Sábados são dias e noites de festa. Quem é este homem misterioso? O que esconde do seu passado? E quem são as pessoas que o rodeiam? A história é-nos narrada por Nick, o seu vizinho do lado, que se vê enleado numa trama inesperada.

Temos aqui um retrato da sociedade pós-guerra, para aqueles que tinham uma posição social elevada, onde o fútil reinava. Mas temos também uma história de amor conturbada…

Voltando a Jorge Coelho, é a minha estreia com este ilustrador, mas fiquei encantada. Adoro o traço e a forma inteligente como usa as páginas para contar a história. Um exemplo, quando Gatsby se torna um homem rico, o desenho mostra-nos metade do Gatsby de antes e metade de agora, dando a ilusão de passagem de um estado a outro. É delicioso de observar!

Uma nota final para esta edição que é de grande qualidade, a capa dura, com dourados e ainda os extras no final.

 

Opinião... Freida McFadden * A Porta Trancada


Depois de “A Criada” e de “O Segredo da Criada”, a fasquia estava alta para este novo livro da autora Freida McFadden. Isto porque estes dois primeiros volumes foram, acima de tudo, surpreendentes e inteligentes na forma como nos entregaram a história. Em “A Porta Trancada” já não encontrei esta particularidade, pelo que é inevitável que tal tenha influenciado a minha opinião.

Desta feita temos Nora, uma cirurgiã conceituada que tem, no entanto, um passado muito conturbado. Há 26 anos, o seu pai atacou e matou várias mulheres, mantendo-as cativas na cave da sua casa de família, tendo sido condenado e preso.

Depois da condenação, Nora foi viver com a sua avó materna e decidiu mudar de nome para que ninguém a associasse ao pai. Ela bem queria fugir deste passado triste e infeliz, mas este não lhe deu tréguas e no presente, 26 anos passados, o assassinato de uma mulher que terá sido sua paciente, com o mesmo modus operandis levanta dúvidas à polícia. Quando o caso se repete com outra mulher, exactamente nos mesmos moldes, o inferno retorna à vida de Nora.

A dada altura ela já não consegue confiar em nada, nem em ninguém. Nem em si mesma…

O grande ponto forte deste livro são as personagens, duras e sofridas, arriscaria até dizer, meio maradas… Depois temos o nível de suspense, sempre em alta, que impossibilita o leitor de largar o livro. A cada página um novo acontecimento, uma acção em suspenso, uma personagem em perigo. Chega a ser inquietante!

Por outro lado, gostaria de ter visto mais explorada a vertente de cirurgiã de Nora, um caminho que me estava a interessar muitíssimo, com todas as questões deontológicas que levanta.

O livro fecha bem a história, com um desfecho inesperado e explicado, que embora não tenha achado bombástico, cumpriu a sua função. Não sendo o meu livro preferido da autora, é um thriller bem construído que prende e entretém.

Opinião... Valérie Perrin * Os Esquecidos de Domingo


Arriscaria a dizer que esta minha primeira leitura do ano poderá ser um dos favoritos de 2024. E desconfio que não falharei… Que livro bom este.

Da escrita de Valérie Perrin já não espero nada mais que o sublime. Esta senhora tem o dom da palavra e leva-nos a viajar com ela ao som do seu encantamento. É incrível a capacidade que tem de me transportar para dentro do livro, assim que o reabro e retomo a leitura. Vivi com estas personagens, estive naquele lar junto com Hélène, naquela casa com a Vó e o Vô. Senti a dor da perda de Justine e senti o choque de cada nova descoberta. Tudo vívido, que deleite!

Desta feita, em “Esquecidos de Domingo”, Valérie entrega-nos uma narrativa cheia de detalhes e de camadas que se traduzem numa história memorável! Por falar no título, quem são os esquecidos de Domingo? São os habitantes do lar onde a jovem Justine trabalha, cujos familiares pouco visitam, aqueles que aos Domingos (e a todos os outros dias da semana) são esquecidos e precisam de ser relembrados. Na minha opinião, este título já merecia um prémio! 

A nossa querida Justine tem apenas 21 anos, mas é uma jovem com uma carga familiar passada demasiado pesada, já que perdeu os seus pais e tios num acidente de carro quando era ainda uma criança. Ela e o seu primo, também ele órfão, vivem com os avós paternos, num lar onde não falta pão na mesa, mas onde as emoções não são permitidas. O Vô, como lhe chamam, é um homem calado e circunspecto e a Vó uma mulher que já se tentou suicidar inúmeras vezes. Justine tem sede de saber mais sobre o passado dos seus pais e depois de vários indícios de que a história não estaria bem contada, vai em busca da verdade. Será que os seus frágeis ombros aguentam com mais esta carga (emocional)?

Paralelamente, temos a história de Hélène, uma habitante do lar, por quem Justine se encanta, passando com ela longas horas. Hélène irá contar-lhe a sua história de vida, história esta que Justine irá escrever num caderno azul, para oferecer ao neto da velha senhora. E nós, leitores, teremos o privilégio de ler este caderno. Mais uma história incrível dentro deste livro. Nela iremos encontrar as várias formas de amar, o perdão, a amizade. 

Tudo é bom neste livro. Sinto que me tornei leitora ávida em busca de livros como este. Livros que se quer muito acabar porque precisamos de saber mais, mas, ao mesmo tempo, livros que não queremos que acabem, para nos mantermos dentro das suas páginas… Um livro cheio de detalhes, com uma teia tão bem construída!