Opinião... Victor Vidal * Não Há Pássaros Aqui


Victor Vidal e o seu “Não Há Pássaros Aqui” foi o vencedor do Prémio Leya 2023. Finalizada a sua leitura, consigo perceber as razões para a atribuição do prémio.

O autor fez aqui um trabalho de dissecação da mente humana incrível. Partindo de uma personagem feita em cacos, analisa cada um deles, procurando origens e razões, por um caminho, na maioria das vezes, muito tortuoso.

É uma história difícil de ler, de sentir e absorver, porque revela o pior do ser humano, mas a forma como o autor nos apresenta os factos, impede-nos de virar as costas e seguir.

Aqui conhecemos Ana, quando esta recebe um telefonema que lhe vai virar a vida do avesso, novamente! A sua mãe está desaparecida há uma semana e a sua presença é requerida pela polícia. Ana obriga-se então a regressar ao lar onde nunca foi feliz, revivendo os momentos tensos, tristes e que quer esquecer.

Talvez porque se viu obrigada a viajar até ao seu passado, num impulso decide ligar ao seu amigo de então, Benjamin e passaremos a ter, a partir daqui, duas personagens sofridas, amarguradas, perdidas no presente por conta dos seus passados.

A procura por respostas a questões pendentes fará parte do dia-a-dia dos dois, em busca de uma salvação que poderá chegar tarde demais…

Todo o livro é uma imensa dor, acontecimentos trágicos, mágoas, marcas profundas para sempre. A escrita é muito boa, criando uma teia em volta destas duas personagens, no presente e no passado, que nos levam numa espiral que roça a loucura. Perturbador, intenso e de um enorme sofrimento, até para o leitor, que assiste impotente, a tanta barbárie.

“Não Há Pássaros Aqui” é um título intrigante, mas que faz tanto sentido depois de lido o livro. Talvez se houvesse mais pássaros ali, com a sua beleza e encanto, a vida não tivesse sido tão dura…

Opinião... Catharina Maura * A Noiva Errada


Quem é “A Noiva Errada”?

Esta é a pergunta que o leitor deste livro precisa de ver respondida. Tudo porque nos conta a história de duas famílias muito ricas (embora uma esteja em posição social e económica mais elevada do que a outra) e, no seio destas famílias, o casamento é uma aliança de negócios em vez de uma celebração do amor. Por isso mesmo, a avó da família Windsor já decidiu com quem vai casar o seu neto mais velho, Ares. Ela será Raven DuPont, uma supermodelo tranquila e amistosa.

Os problemas começam quando Raven leva a sua irmã Hannah a uma festa onde Ares também se encontra. Hannah fica perdida de amores por ele e o sentimento é recíproco. A avó decide fazer a vontade ao neto já que, mantendo-se dentro da mesma família a aliança contínua garantida. No entanto, Hannah é uma atriz famosa e rapidamente percebe que este casamento a vai limitar nas suas viagens e disponibilidade para gravar. É então que decide dar um passo atrás e adiar o casamento, atitude que desgosta o noivo e chateia a avó que volta atrás com a sua decisão, retomando a intenção de o casar com Raven.

Agora, quem é a noiva errada? O que acontecerá? É o que iremos descobrir ao longo desta leitura que conta com paixões escondidas, reservas na entrega ao outro, partes picantes q.b., bem escritas e desenvolvidas, más decisões que levam a arrependimentos, e outras decisões que se revelam bem mais acertadas.

Apesar das minhas renitências com o género de romance erótico, este livro acabou por cumprir a sua função de entretenimento de forma bastante satisfatória. Há toda uma série de questões que se levantam relativas aos casamentos arranjados por terceiros que achei muito interessantes. Não me fez mudar de opinião quanto ao género, mas proporcionou-me bons momentos de lazer.

Opinião... Angélica Lopes * A Maldição das Flores


Quando se é uma leitora ávida como eu sou, é sempre uma lufada de ar fresco encontrar uma história original, que nos arrebate e cative. Foi o que me aconteceu com “A Maldição das Flores”.

A premissa é, em si, incrível. Remontemo-nos aos inícios de 1900, quando a voz das mulheres era simplesmente inexistente. Na região de Pernambuco havia um grupo de mulheres rendeiras, do qual faziam parte a família Flores (que dá título ao livro, já que paralelamente conheceremos a maldição que as assola) e uma amiga, a Eugenia. É precisamente Eugenia que, obrigada a casar-se com um homem que a impedia de sair de casa e a maltratava, encontrou nas suas rendas o veículo de comunicação perfeito.

Cada ponto correspondia a uma letra do alfabeto, portanto, todas aquelas que soubessem o código, poderiam comunicar. E é desta forma que Eugenia comunica com a sua amiga Inês Flores, na tentativa de fuga que ambas elaboram.

Damos então um salto até à actualidade e conhecemos Alice, uma jovem activa e reivindicativa, que luta e defende os seus princípios, tentando ganhar a tal voz que tanta falta fez às mulheres ao longo de décadas. Ela será a herdeira de um véu, em renda, e do respectivo código. Este é-lhe oferecido por uma tia que ela não conhecia. Quando percebe o que aquele véu representa, não consegue mais parar até conhecer a história de toda a família e quem foi Eugenia.

É este caminho que iremos fazer em conjunto com Alice e, garanto-vos, é uma caminhada incrível! Toda a envolvente destas rendas, os acontecimentos que se atropelam, as aparências, o sofrimento de tantas mulheres ao longo dos anos, tudo é vívido e sentido. Adorei!

Quem me segue, sabe que tenho alguma relutância em ler em português do Brasil, porque sinto que me atrapalha a compreensão imediata do que leio. Mas, neste livro, senti que fluiu de forma ligeira, talvez porque a história me interessou tanto.

Em suma, encontrei aqui um romance original, com um tema também ele original e muito bem desenvolvido, ainda que assente numa problemática tão antiga: as desigualdades entre homens e mulheres. Aqui, elas provaram que com inteligência se consegue contornar a força bruta, ainda que nem sempre com um final feliz!

Opinião... Sophie Lark * Brutal Prince

 


Temos gangues rivais? Sim, temos. Os Gallo e os Griffin, uma família de origem irlandesa outra italiana, ambas relacionadas com a máfia.

Temos uma relação de ódio que se transformará noutra coisa? Temos. E com cenas bem calientes, por sinal!

Temos então os ingredientes certos para um bom romance, levezinho e divertido, óptimo para estes dias mais quentes. Na minha opinião, poderia ter sido, caso não tivesse um enorme senão, que se prendeu com as cenas mais tórridas do romance. Nada contra elas, mas a linguagem utilizada poderia ser muito mais bonita, revestindo-as de uma sensualidade que achei inexistente. Nada de puritanismos, apenas não se adequa ao meu gosto pessoal.

E este pequeno/grande senão, porque são várias as passagens, fez com que não apreciasse o livro como um todo, ainda que tenha achado bastante piada às picardias entre as personagens principais, a Aida Gallo e o Callum Griffin.

Ela é destemida e não mede as consequências. Ele tem sede de poder, a qualquer custo. Juntos só poderiam provocar um tornado. Foram estas partes que me divertiram e fizeram rir. Isso e as reacções inesperadas, que apanharam as personagens de surpresa e a mim também.

Em suma, é um livro que entretém, não é maçador, mas não me encheu as medidas. É bem verdade que cada livro tem seu leitor, eu não serei o deste...

Opinião... Salva Rubio * O Fotógrafo de Mauthausen

 


“O Fotógrafo de Mauthausen” conta-nos um período negro da história mundial, mas sobre a perspectiva de um fotógrafo espanhol. O que foi, à partida, uma novidade para mim. O tema da Segunda Guerra Mundial e, em particular, dos campos de concentração, dada a sua enormidade, são muitas vezes abordados na literatura, mas nunca tinha lido na perspectiva dos espanhóis.

Mais ainda, perceber que estas pessoas, por serem contra o franquismo, foram obrigadas a exilar-se em França, que rapidamente usou a sua força como préstimos à pátria, para os largar ao seu destino quando os nazis avançaram. É desta forma que milhares de espanhóis foram levados para o campo de concentração de Mauthausen, na Áustria.

Um deles foi Francisco Boix que terá passado por duras penas, à semelhança dos seus compatriotas, mas que teve a “sorte” de ver descoberta a sua habilidade com a fotografia, passando a integrar a equipa de prisioneiros “afortunados” (com muitas aspas). A sua função era acompanhar o fotógrafo nazi e revelar todas as fotos tiradas no campo. E havia ali um pouco de tudo, desde fotos a simular uma realidade inexistente, onde os prisioneiros eram bem tratados, para provar o que não existia, até fotos dos próprios nazis, com o objectivo de as enviarem aos familiares, passando por fotografias que testemunhavam atrocidades várias.

São precisamente estas últimas que Francisco quer esconder para que sirvam de provas futuras. Para tal, arrisca muitas vezes a sua vida e a dos seus companheiros…

A arte deste livro é de grande qualidade, fazendo uso das cores sombrias para retratar um dia-a-dia muito duro e cinzento. Gostei muito da forma como a narrativa foi contada, ilustrada de forma muito adequada à seriedade do tema.

Adicionalmente, o livro tem um dossier histórico muito completo, que detalha partes da novela gráfica, mostra fotos e distingue o que é ficção do que é realidade. Pareceu-me uma obra muito completa, séria e profissional que me deu a conhecer (mais) uma perspectiva que desconhecia sobre um tema que não podemos esquecer.

Opinião... Eleanor Shearer * A Canção do Rio


 Ler um livro sobre escravatura é saber, à partida, que será uma leitura sofrida. Mas se juntarmos uma mãe escrava em busca dos seus filhos vendidos, temos uma história de amor incondicional que não deixa ninguém indiferente.

Que livro bonito. Que ode ao amor maternal. Personagens fortes, lutadoras e bem caracterizadas. Sofri a ler este livro, tanto que tive de retardar o ritmo de leitura, para o absorver e, muitas vezes, respirar fundo.

Rachel é escrava e mãe. Toda a sua vida foi de sofrimento, primeiro pela clausura, depois por ver os seus filhos serem levados, um por um. No dia em que é abolida a escravatura, Rachel sabe que é a sua oportunidade de fugir (porque embora já não fossem escravos, tinham a obrigação de permanecer com os seus anteriores donos, por mais 6 anos) e procurar os seus entes mais queridos.

Parece-me que não é sequer possível imaginar o que será esta demanda. Se seria difícil nos dias de hoje, com acesso a tanta informação, imagine-se em 1834! Só mesmo uma força muito poderosa poderia fazer esta mulher acreditar. E esta força chama-se amor!

Não achei as falas de Rachel fáceis de ler, porque retratam a pessoa que é, iletrada e sem acesso a qualquer tipo de educação. No entanto, só fazia sentido ser desta forma e, como tudo, ao fim de algum tempo, acostumei-me e na segunda metade do livro já não me causava sequer estranheza.

Uma palavra para a tradução deste livro. Calculo que tenha sido uma tarefa árdua, que foi concretizada de forma exemplar.

Este romance é tão bonito quanto a capa do livro, ainda que toque em temas que são tudo menos bonitos. Ressalvar também os cenários onde se passa a acção, senti a terra crua de Barbados e de Trindade, tudo muito bem descrito. Um livro para ler devagar, degustar e louvar esta mãe incrível!

Opinião... Daniel Sweren-Becker * Kill Show

 

“Kill Show” tem uma premissa muito original e interessante. Foi o que de imediato chamou a minha atenção e me fez passá-lo para o topo da lista dos livros por ler.

Sara é uma rapariga de 16 anos, que desaparece a caminho da escola. O caso ganha rapidamente uma nova dimensão quando os pais aceitam participar num reality show televisivo, que tem por objectivo acompanhar e tentar solucionar o caso, em tempo real.

O formato escolhido pelo autor para contar esta narrativa é também ele muito original, já que não há texto corrido, havendo antes falas das diferentes personagens, em jeito de entrevista. Mas o mais interessante é que parece que todas elas estão numa grande sala, a ouvir-se, já que há reacções às intervenções anteriores, o que cria uma dinâmica muito gira no livro.

Depois temos os plot twists, muito bem feitos, que me pregaram valentes rasteiras, mas sempre com coerência e sentido, tornando quase impossível parar de ler.

Todo o livro é uma enorme critica à sociedade actual, ao poder da manipulação de imagem e ao peso da opinião pública anónima. A panóplia de diferentes personagens é outra característica interessante deste livro, temos desde os pais e restante família, a toda a equipa produtora do programa, passando pelo inevitável negacionista ou pelo grupo de apoio criado espontaneamente nas redes sociais.

Actual e com uma utilização muito inteligente das ferramentas digitais, Daniel Sweren-Becker criou um thriller muito interessante e original, que dá que pensar e que levanta inúmeras questões morais. Gostei muito desta leitura!

Opinião... Ticas Graciosa * Nini

 


Saber que um livro, ainda que seja de ficção, é baseado em factos verídicos, para mais vividos pela autora, dá-lhe de imediato outra dimensão.

“Nini” é a menina protagonista desta história, que viveu no seio de uma família com graves problemas, que assistiu ao que não devia desde muito pequena, que perdeu os seus pais da forma mais trágica. Mas Nini é igualmente a menina que soube perdoar e não se deixar amargurar pelos acontecimentos, que facilmente a poderiam ter levado por um caminho de raiva e dor. Ela preferiu ver as coisas boas da vida, segurar-se a elas para continuar, em vez de se perder neste lado mau que vivenciou.

E esta é, sem dúvida, a mensagem forte deste livro. Uma lição de vida, quando nos queixamos de pequenas coisas e fazemos delas uma coisa enorme, ao vermos estes exemplos, percebemos o que são situações dramáticas. É de reflectir!

Desde cedo houve muita violência doméstica na família de Nini. O seu pai sofria de uma doença mental que o cegava de ciúmes, no entanto, apesar dos avisos dos que estavam mais próximos, nada se fez para evitar a tragédia anunciada. Se do lado da mãe de Nini todos procuravam ajudar e incentivar ao tratamento, o oposto aconteceu do lado da família paterna. Aliás todo o contexto familiar deste lado da família causa de imediato alguma estranheza, pela forma fria como se relacionavam, numa relação de quase medo.

São inúmeros os momentos deste livro em que apetece intervir e gritar sinais de alerta. É compreensível que quando se está dentro das situações se tenha uma perspectiva distorcida das mesmas, mas ainda assim é muito custoso de observar.

A escrita de Ticas Graciosa tem por vezes uma construção de frases que me dificultou a leitura, obrigando-me a reler algumas passagens. Mas à medida que o livro avança, acabei por me habituar, não tendo estragado a leitura no seu todo.

Como disse, Nini conseguiu sobreviver a este ambiente doentio, à tragédia (ela nunca culpou o pai pelo sucedido, atribuindo antes culpa à doença), às mudanças drásticas da sua vida após a tragédia (a convivência com a avó não foi fácil) e ainda achar que a vida tem muita graça. Que grande lição!

Opinião... Jean Regnaud e Émile Bravo * A Minha Mamã está na América e encontrou o Bufallo Bill

O título “A Minha Mamã Está na América e Encontrou o Bufallo Bill” e a capa amorosa desta novela gráfica não deixam adivinhar o quanto este livro é tocante.

Não irei falar muito sobre a história, porque a descoberta da mesma é o ponto chave. De qualquer forma, gostaria de partilhar aqui uma citação que se encontra na contracapa do livro, pelo Le Nouvel Observateur: “Uma bela história sobre o luto, a amizade e aquela mania dos adultos de mentir por omissão”.

Julgo que resume na perfeição e toca num ponto muito pertinente, já que muitas vezes os adultos não sabem como falar com as crianças, principalmente em situações extremas e inesperadas. Este menino é um doce e tem uma perspectiva da vida muito inocente, própria da sua idade.

Quanto às ilustrações, achei-as muito bonitas e, acima de tudo, muito expressivas. É incrível como as suas expressões falam tanto, ao ponto de quase não ser necessário texto. Para além disso, uma primeira leitura poderá levar-nos a crer que são desenhos simples, mas uma observação mais cuidada revelar-nos-á inúmeros detalhes. Depois temos a palete de cores, com tons que adoro e que resultam muito bem no todo.

O livro tem ainda, entre capítulos, os interlúdios, que embora não sejam continuação directa da narrativa, acabam por estar relacionados e acrescentar valor ao que já foi apresentado.

Em resumo, temos aqui uma novela gráfica aparentemente simples, mas que, no entanto, contém uma mensagem muito forte e que obriga a reflexão. E este menino, na sua inocência, cativa qualquer leitor!

Opinião... Francesca Giannone * A Carteira

 

Assim que vi a capa deste livro, tive um feeling que era o livro certo para mim. Depois de saber a história, mais convencida fiquei. Elevei de tal forma as expectactivas que, confesso, iniciei a leitura com algum receio.

Mas posso dizer agora, que qualquer receio foi totalmente infundado. Que livro bom este! Tem tudo o que eu adoro e procuro num romance. Uma escrita exemplar, uma história de família que percorre longos anos, uma localidade pequena, bem característica do espírito italiano, mulheres fortes, alegrias e sofrimentos. Que leitura tão rica.

Sinto sempre que os italianos são exímios a escrever romances de família, o ritmo, as personagens de personalidade forte, a forma de escrever, encaixa tudo na perfeição.

Aqui temos Anna, uma mulher que se muda com o seu marido Carlo para a terra Natal dele, local onde é bem recebida, no entanto, onde não se sente em casa. É com dificuldade que Anna se integra nesta nova sociedade, junto da família de Carlo. Para agravar a situação, sente que precisa de uma ocupação profissional, algo que não é visto com bons olhos àquela época. Mas ela é resiliente e será como carteira que irá encontrar o seu lugar. Se primeiro é olhada de lado, por exercer uma profissão masculina, a forma como a encara, com profissionalismo e coração, acaba por fazer com que todos se rendam.

Anna era a bisavó da autora, Francesca Giannone. Ela terá encontrado um cartão de visita desta bisavó, o que a levou a imaginar esta história, cuja localidade e personagens são mera ficção. Ainda assim, saber que esta bisavó existiu e foi o mote para esta narrativa tão bonita, torna-a ainda mais especial.

O livro dá tempo ao leitor para se envolver com as personagens, para as sentir e se sentir lá, no meio da acção. Adorei cada página, cada personagem, cada passagem. Só tive pena que tivesse terminado. Anna Allavena, carteira, ficou comigo, como exemplo e como inspiração!

Opinião... Freida McFadden * A Criada Está a Ver

 


Ai Freida, o que foste fazer à “nossa” criada?

Desculpem o desabafo, mas terminei a leitura deste terceiro volume e fiquei um tanto indignada com as opções que Freida McFadden tomou neste livro. Millie revelou-se uma personagem incrível no primeiro volume, “A Criada”. Uma mulher de armas, lutadora e poderosa ao seu jeito, genial e destemida. Uma personagem que é impossível esquecer.

Agora, os anos passaram, Millie casou e tem dois filhos e acaba de se mudar para a sua casa de sonho, numa zona tranquila onde ela sente que os seus filhos poderão crescer livres e em segurança. Mas nem tudo é o que parece e os vizinhos não os recebem da forma que sonhariam, revelando-se muito diferentes do que imaginaram.

Millie tornou-se numa personagem empoeirada, sem garra, sem presença e sem a força que tanto a caracterizou e de que tanto gostei, o que me deixou muito decepcionada com este livro…

Millie à parte, e falando apenas em termos de thriller, está bem construído, é de leitura rápida (embora não frenética) e é coerente. Mas não surpreende e, inclusive, há ali um pormenor no final (que não vou revelar por causa dos spoilers), que não me convenceu totalmente.

Os vizinhos do lado deste novo lar são estranhos, ela é dona do seu nariz, autoritária e pouco simpática com quem não gosta. Ele é maleável, aceita e cumpre tudo o que a mulher diz. Do outro lado da rua mora outra vizinha, que tem por hábito espreitar à janela, sabendo tudo sobre todos (acha ela!), tem o controlo absoluto sobre o seu filho, chegando a levá-lo de trela à paragem de autocarro escolar. Definitivamente não foi este o cenário que Millie idealizou quando fez a proposta de compra daquela casa, mas nem sempre as coisas são como imaginamos… aliás, num thriller, nunca são, não é?

Quem procura um thriller que entretenha e não complique, poderá apreciar esta leitura. Quem é fã da autora e sabe o que ela consegue fazer, fica com um amargo de boca, porque este não acompanha a qualidade e intensidade de “A Criada” (o meu preferido ainda e sempre!).

Opinião... Pedro Rodrigues * A Mar

 


A primeira coisa que me fez pegar neste livro foi, sem dúvida, a capa. Está incrível e, depois de ler o livro, percebo o quanto se adequa! Depois de o folhear percebi de imediato que não se tratava de uma narrativa contínua e o autor esclarece logo no início do livro que se trata de um conjunto de textos que foi escrevendo ao longo dos anos, alguns publicados digitalmente, outros guardados na gaveta, que decidiu publicar em formato de livro. Incluí ainda umas páginas muito originais, com pequenos pensamentos acompanhados de desenhos.

O livro está dividido em quatro partes, cada uma correspondendo a uma estação do ano e achei a ideia muito criativa, já que os textos estão datados e é possível organizá-los desta forma. E é desta forma que se entende o quanto a época do ano se reflete na nossa disposição, sendo os textos do Verão mais positivos que os do Inverno. É muito interessante esta análise.

Achei igualmente interessante perceber o crescimento do autor no que toca ao amor. A maturidade tudo traz, se os textos mais antigos revelam uma energia e dramatismo próprios de uma determinada idade, os textos mais recentes já são mais serenos e encaram o amor de forma diferente. A dor que acompanha o fim de um relacionamento é aqui abordada de uma forma honesta que me agradou bastante.

Apreciei particularmente os textos destinados aos avós e à mãe. Nada como falar de quem mais amamos para transmitir emoções! São lindos!

Obviamente houve outros textos que não me disseram tanto e, em alguns casos, temi que ultrapassassem a linha ténue das frases feitas. Acredito que nunca a ultrapassou, no entanto.

Sugiro que leiam este livro aos poucos, deixando-o num local onde se sintam confortáveis e o vão desfrutando, abrindo numa página aleatória até. Eu li o livro de seguida, sem outros a intercalar e acredito que terei perdido parte da sua magia por isso (é um dos meus defeitos… não saber esperar…).

Terminada a leitura, fiquei com a sensação de que li um diário de Pedro Rodrigues, que me contou alguns dos seus segredos e esse voto de confiança da parte dele, conquistou o meu coração de leitora!

Opinião... Marta Coelho * Minúscula


 Assim que descobri que Marta Coelho tinha lançado um novo livro, entrou de imediato na minha TBR. Já tinha lido um livro da autora há uns anos e gostado muito da sua escrita. “Minúscula” é o título do novo livro e tenho de referir, antes de mais, o quanto gostei desta capa, desde as cores à composição! Ainda que não conhecesse a Marta, seria, com certeza, um livro que chamaria por mim!

E que livro bom este! Primeiro porque o que tanto gostei no anterior, a escrita, não só está lá, como sofreu um salto de qualidade enorme! Em segundo, a história. Parti para a sua leitura na expectactiva de encontrar um bom romance, mas encontrei muito mais e fui completamente apanhada de surpresa! A dada altura, o livro sofre uma reviravolta que me deixou de queixo caído. Foi genialmente construído!

“Minúscula” fala-nos sobre Duda. Ela é escritora, mas desde o fim de uma relação de vários anos, sente-se perdida, não só na vida, como na inspiração que lhe permite contar histórias. Mas Duda é muito mais do que esta mulher sozinha em busca de inspiração. Em pequenas viagens ao passado vamos entender muito do que ela é no presente. A vida não tem sido fácil para ela, mas a sua resiliência mantém-na à tona, em busca de um futuro feliz.

Fala-nos também de Pedro, alguém que vamos conhecendo muito devagarinho. Ele está numa rua do Chiado a escrever poemas a troco de moedas. Duda cruza-se com ele e, quase em jeito de desafio, insta-o a escrever sobre amor, o único tema em que ele não acredita. E ainda assim, faz magia com as palavras… De tal forma, que ainda que contra os seus princípios, Duda utilize o que ele escreveu para cumprir um prazo de entrega de trabalho. Quando pensava que tinha arruinado de vez a sua vida profissional, recebe um convite inesperado para escrever um livro a quatro mãos. Com quem? Com Pedro, que não é apenas um escritor de rua, é antes o autor de uma obra muito premiado no passado…

E só isto poderia fazer o livro. Mas não, Marta usou de toda a sua criatividade para nos oferecer uma história com muito mais, que foi um deleite ler. Esta devia ter sido uma daquelas leituras que se me filmassem ia dar uns bons memes! 😊

“Minúscula” fala-nos de solidão, de saúde mental, do quanto a infância nos influencia na vida adulta, do poder do amor. Tudo pelas bonitas palavras de Marta. Estou definitivamente rendida a este livro!

Opinião... Tina Vallès * A Memória da Árvore

 


“A Memória da Árvore” foi um livro que me passou despercebido, mas que, felizmente, me foi apresentado por uma amiga leitora em quem confio muito. E, uma vez mais, não desiludiu. Que livro bonito este, uma ode ao amor entre um avô e um neto. Tenho o privilégio de assistir a uma relação igualmente forte e posso afirmar que é realmente bonito.

Aqui temos um pequeno grande pormenor, este avô está a perder a memória… vamos acompanhar a progressão da doença pelos olhos deste jovem neto, através da inocência e do falar do seu coração. É maravilhoso!

Alturas houve em que senti que este livro tinha um tom de “O Principezinho”, pela forma como nos ensina a olhar o mundo com olhos inocentes e nos relembra o que é realmente importante.

A escrita é muito bonita, palavras simples que dão voz a este menino, separados em páginas quase como se fossem pequenas passagens, mas que todas juntas nos oferecem o todo. Uma história simultaneamente triste e bonita, uma mensagem de amor profundo que adorei conhecer.

Opinião... Gabriela Ruivo Trindade * Uma Outra Voz


Queria conhecer Gabriela Ruivo Trindade desde que ganhou o prémio Leya, em 2013. O seu livro, “Uma Outra Voz”, habita as minhas estantes quase desde essa altura. Felizmente tive oportunidade de ouvir a Gabriela falar num evento no Dia Mundial do Livro e gostei muito, quer das suas ideias, quer (principalmente) da sua forma de as transmitir. Foi o mote perfeito para ir buscar o livro e ler.

E posso desde já dizer que gostei muito! Encontrei nestas páginas a mesma fluidez de pensamento a que assisti naquele dia. Aqui, conta-nos a história de João José Mariano Serrão, um homem que fez a diferença em Estremoz, ajudando aquela localidade a chegar a cidade, principalmente com a fábrica de moagem e electricidade, que dá capa ao livro.

Mas esta história não nos é contada da forma tradicional. A autora escolheu várias vozes, em vários espaços temporais, cada uma com a sua versão da história, todas elas contribuindo para a riqueza da mesma. Ficaremos a conhecer as pessoas, o ambiente, os acontecimentos mais relevantes, tudo em redor deste homem que criou não só riqueza para a terra, como criou ainda os seus sobrinhos, na ausência de filhos próprios.

Mas esta é também uma história de amor, que se vai revelando aos poucos e é rematada pelo diário do próprio João, que fecha o livro com chave de ouro, fechando todas as pontas soltas. Esta construção é, sem dúvida, o ponto forte do livro, porque as várias perspectivas criam uma aura de mistério, que o leitor tem de ir descortinando ao longo das páginas.

A autora referiu que não gosta de entregar tudo de bandeja ao leitor e percebe-se isso neste livro. Cada nova parte é relatada por uma nova voz, que não sabemos de imediato quem é, o puzzle apenas se vai completando ao longo da leitura, algo que me agrada muito.

A sinopse refere que o livro se baseia em factos reais, mas não consegui perceber quanto do livro é real e quanto é ficcionado, o que diz muito sobre a qualidade da escrita da autora. Para além disso, a regionalização que introduziu no seu vocabulário torna-o ainda mais verosímil.

Foi, sem dúvida, uma leitura que me agradou muito e me faz querer descobrir mais da autora.

Opinião... Raphael Montes * Jantar Secreto

 


Acabei de ler este livro e pensei “este livro é tão bom!”, mas, em simultâneo, pensava “mas este livro é tão mau!!”. Como pode uma coisa assim? 😊

É verdade, Raphael Montes conseguiu a proeza de fazer um thriller incrível de um tema terrível. Como é que consegue prender a atenção do leitor, narrando atrocidades? Só me imaginava com a mão a tapar os olhos, com os dedos entreabertos a espreitar, num misto de quero e não quero saber (Não o fiz (embora o pudesse ter feito!)).

Acho que nunca tal me tinha acontecido numa leitura, confesso.

Esta história começa serena. Um grupo de amigos que sai da terra para a grande cidade. Neste caso, para o Rio de Janeiro. Eles são 4 e veem estudar, alugando um apartamento que partilham. Uns com mais sucesso que outros, lá vão avançando e chegam ao mercado de trabalho. Mas a vida não é fácil e a crise não ajuda, levando-os a um ponto de sufoco inesperado, depois de vários anos instalados na grande cidade.

Tudo piora quando um deles, o Leitão, fica com o dinheiro da renda do apartamento em vez de pagar a mesma. Quando os outros descobrem, a dívida já está impossível de pagar e são ameaçados de despejo. É nessa altura que lhes surge uma ideia que parece peregrina. Porque não servir jantares em casa, já que um deles é um chef de qualidade, ainda que a mesma não seja devidamente reconhecida no mundo hoteleiro.

Uma brincadeira supostamente inofensiva do tal Leitão, transforma o anúncio deste evento em algo completamente diferente, já que a iguaria anunciada não é de todo o esperado. O que começou como uma brincadeira rapidamente entre numa escalada de horror e, em simultâneo, de riqueza, que os prende cada vez mais.

Os caminhos são muito obscuros, cruéis, imorais.  E é este caminho que trilhamos com os protagonistas, qual câmara dos horrores.

Atenção que este livro tem descrições impróprias para estômagos mais sensíveis. A dada altura obriga a parar e respirar fundo, tal é a descrença na capacidade humana para o mais negro e perverso. Perturbador é o mínimo de que se pode qualificar este livro.

Mas ainda assim é um thriller construído com uma mestria, que nos conduz por onde quer e nos surpreende quando determina que é chegada a altura. Genial!

Opinião... Lara Fresco * Por Amor a Madalena"

 


Lara Fresco estreia-se como escritora neste “Por Amor A Madalena”. Nele, leva-nos a conhecer Madalena e Bernardo, um jovem casal que, como tantos outros começou a sua relação na escola secundária. E se nos reportarmos aos primeiros anos, tratou-se de uma relação normal, saudável e amorosa, ainda que se tenham notado os primeiros indícios de isolamento social.

Mas o Bernardo começou a sentir ciúmes desmedidos de Madalena, a qual só queria para si. Tudo se agravou quando ambos entraram na faculdade em Coimbra (eles são do Porto), o que os obrigou a mudar de cidade e a alargar o leque de amigos/conhecidos.

Madalena tem sede de viver a vida estudantil que aquela cidade oferece. Bernardo não deixa. E a partir daí tudo começa a ruir. Primeiro um empurrão, depois palavras agressivas, numa escalada de violência física e verbal…

Embora não seja um livro autobiográfico, a experiência pessoal da autora levou-a a escrever esta história. Acaba por ser um grito de alerta para os sinais, evidentes para quem observa de fora, não tanto para quem os vive! E, embora as consequências sejam variáveis, casos extremos fazem parte das tristes estatísticas nacionais.

Apenas por este facto, este livro já seria necessário e importante. Que muitos jovens leiam e percebam que o respeito dentro de uma relação é o pilar base. Sem ele não há relação, nem há amor. Não vale tudo, por amor!

O livro está escrito intercalando passado e presente. Gostei muito disso, já que não me permitiu nunca sentir empatia pelas atitudes deste casal. Sabia, desde o início, onde aquela linha ia parar. Caso contrário poderia ter caído na armadilha do “oh, que amorosos”.

Em termos de escrita, esta é simples e directa, com muitos diálogos, sem medo de chamar as coisas pelos nomes. Um livro real e directo. Apenas achei que por vezes poderia ter um vocabulário mais diversificado, mas trata-se de uma primeira obra e acredito que Lara Fresco tem ainda um longo e bonito caminho a percorrer!

Uma nota final para a presença marcante da cidade de Coimbra. Uma cidade que entrou na minha vida há poucos anos, mas onde me vou sentindo em casa. As inúmeras referências do livro à cidade e à cultura universitária tocaram-me particularmente.

Opinião... St John Greene * A Lista da Nossa Mãe


“A Lista da Nossa Mãe” habitava as minhas estantes há já muito tempo, sem ser lido. E eu sei porquê… Porque eu tinha receio de o ler, de sofrer com o seu conteúdo.

Na minha missão de ler os livros mais antigos da minha biblioteca, calhou agora a sua vez e afinal tinha criado uma imagem que não correspondeu à realidade. E foi isso mesmo que me fez gostar menos deste livro, já que tratando-se de um tema tão duro e pesado, a minha expectativa era que me tocasse e incomodasse. Não aconteceu… E julgo que tal se ficou a dever ao facto de ter sido escrito por uma pessoa externa aos acontecimentos.

Temos aqui um livro de não ficção, cujo ponto de partida foi uma lista de coisas que Kate deixou ao seu marido, que ela gostaria que ele fizesse ou relembrasse. Isto porque ela faleceu, depois de ser assolada por uma terrível doença, deixando dois filhos pequenos.

O mais chocante nesta história verídica é que, quando Kate descobre a sua doença, o seu filho mais velho tinha acabado de lutar, também ele, pequenino, contra a mesma doença. Não consigo sequer imaginar o quão devastador deve ter sido para esta família!

Kate foi a imagem da esperança e do positivismo enquanto foi viva. Viveu e apreciou cada momento, mesmo quando enfrentava tão duras batalhas. Neste aspecto, este livro é uma enorme lição! O seu marido, St John ficou com um fardo pesadíssimo. Por um lado, viver o seu luto de forma discreta, porque havia duas crianças pequenas para cuidar, por outro, viver com a sombra da doença do seu filho de forma permanente. Mas também ele é um bonito exemplo do que o amor à família consegue fazer.

Depois temos a lista, que contém coisas práticas, lembretes, memórias, pedidos e muito amor. É um livro que nos lembra do quanto é importante viver o presente, porque não sabemos o que nos reserva o futuro. Só por isso já valeu a pena a sua leitura!

Opinião... Sebastià Cabot * Novembro

 


Sempre que leio uma novela gráfica, procuro duas coisas: ilustrações magníficas que me arrebatem e uma narrativa bonita com uma história interessante. Nem sempre acontece, obviamente. Em grande parte dos casos, encontro ilustrações lindas com uma história simples ou uma história incrível, com ilustrações que acabam por crescer apenas porque a acompanham. O pleno é obviamente o que me arrebata.

Isto para dizer que em “Novembro” aconteceu exactamente o oposto, nem as ilustrações, nem a narrativa me convenceram... Acontece, não é possível gostar de tudo e nem sempre se acerta. Cada leitor tem os seus gostos e experiência e os livro tocam de forma pessoal e distinta cada um deles.

Em “Novembro” iremos conhecer um escritor em crise criativa. Percebemos igualmente que a sua relação já conheceu melhores dias. De seguida, fazemos uma viagem ao passado, para entender o início desta mesma relação, com final anunciado...

Poderei não ter compreendido a intenção do autor ao criar esta obra, mas o que captei não foi além desta linha narrativa básica, que pouco me acrescentou.

As ilustrações também não são as minhas preferidas, embora tenham um pormenor de que gosto muito. A mudança de cores ao longo das páginas (cada duas páginas têm apenas uma cor além do preto e branco), adequadas ao ambiente que se vive.

É uma leitura rápida, por isso mesmo, terminei-a, mas não me acrescentou o que esperava. Sinto que esta história será rapidamente esquecida, porque não marcou. Não gosto que tal aconteça, mas nem sempre se acerta...

Opinião... Emily Henry * Uma Boa História


 

“Uma Boa História” marca a minha estreia com a autora Emily Henry. Já há bastante tempo que queria conhecer os seus livros e, posso já avançar, foi uma experiência muito positiva.

Depois de várias leituras mais pesadas e tristes, este livro veio no momento certo. Soube-me tão bem passear pelas suas páginas...

Falando da história, temos uma narrativa simples, um romance romântico com todos os ingredientes que se esperam: um amor forte, uma ruptura inesperada, um apoio ainda mais inesperado, dúvidas, amizades e traições.

Daphne e Peter são um casal amoroso. Ele adora contar a sua história a dois. No entanto, à medida que o casamento se aproxima, Peter começa a ter dúvidas. Petra e Miles são outro casal onde tudo aparenta estar bem. É por isso que, no dia em que Peter comunica a Daphne que não quer continuar a relação e que se irá juntar a Petra, tudo se desmorona.

Daphne vê-se, de repente, sozinha numa localidade onde nunca criou raízes, sem amigos (os poucos que tinha eram por intermédio de Peter, pelo que rapidamente desapareceram), sem lugar para morar. Por outro lado, Miles está igualmente perdido, com o fim inesperado da sua relação e sem forma de pagar a casa, sem dividir a renda. É desta forma que se vêm a partilhar casa e... tristeza.

A partir daqui, tudo o que é esperado acontece...

O que mais apreciei neste livro foram, sem dúvida, os diálogos entre as personagens, recheados de referências, bom humor e uma quase competição de palavras. Falando em humor, adoro quando um romance tem a capacidade de o incluir de forma subtil, mas com forte presença. Aqui acontece em pleno. Dei por mim a sorrir a ler este livro. Que bem que me soube! Previsível, sim, mas delicioso de se ler! Agora é desbravar os restantes livros desta autora, já editados no nosso país.

Opinião... Christian Lax * A Universidade das Cabras

 


“A Universidade das Cabras”, um título aparentemente estranho que faz todo o sentido depois de lida esta maravilhosa novela gráfica!

Folheei o livro na primeira vez que o vi e o que me chamou de imediato a atenção foram as ilustrações. Porque sem serem totalmente definidas, são tão cativantes. Mais ainda quando se vai lendo e percebendo as subtis alterações de ambiente que vão imprimindo à narrativa. As ilustrações de página inteira, cortadas para dar a sensação de movimento da personagem são tão bonitas! Perdi-me muitas vezes nestas páginas, confesso.

Mas não foram só as ilustrações que me cativaram, a própria história, repartida no tempo e entre diferentes personagens sem aparente ligação é muito interessante! Começamos por conhecer Fortuné, em 1833, um professor itinerante nos Alpes franceses, que percorre centenas de quilómetros com o único objectivo de distribuir conhecimento às crianças sem acesso ao ambiente escolar. Ele tem três penas no seu chapéu, indicativo de que tem competências em três áreas: leitura, escrita e números. Mas as leis mudam e, de um momento para o outro, Fortuné vê-se impossibilitado de exercer a sua profissão. Escolhe então vender livros, permanecendo na sua saga por distribuir cultura, mas uma vez mais é barrado. É então que decide partir, numa viagem que o leva para longe e que lhe muda a vida para sempre.

Vamos também conhecer Arizona, na actualidade, uma jornalista que irá ao Afeganistão entrevistar mulheres que marcaram a diferença. O seu guia será Sanjar, um homem que já foi, também ele professor itinerante, levando o seu quadro preto às localidades mais recônditas, para que as crianças (meninos e meninas) pudessem aprender a ler e escrever. Mas também ele viu os seus intentos bloqueados… E é aqui que as histórias se começam a enredar…

Este livro dá que pensar. Como é que tantas décadas se passaram e ainda assim, a história se repete? O que poderá não ser tão chocante quando passado em 1833, toma contornos muito mais assustadores pela proximidade aos nossos dias. “A Universidade das Cabras” tem ainda um posfácio brilhante, que enriquece em muito a leitura deste livro. Não deixem de a ler!

Opinião... Nuno Franco Pires * Abril


 

Apaixonei-me pela escrita de Nuno Franco Pires ao final da primeira página, do primeiro livro que li do autor. E a cada novo livro, é sem dúvida a escrita que me encanta e cativa. Um verdadeiro deleite!

“Abril” dá seguimento ao livro anterior “Sombras da Raia”, e tem início no dia 24 de Abril de 1974, aquele que marcou a viragem, em termos políticos, do nosso país. Todo este processo de transformação está muito bem documentado, sem ser exaustivo ou cansativo. Para mim, que não aprecio particularmente ler sobre política, foi perfeito. Trouxe-me conhecimento mantendo o fio condutor da história da família Castro Gomes, família reputada em Elvas, que viu crescer os irmãos Afonso e Duarte, ao lado da menina austríaca que acolheram, Mia.

Esta família, à semelhança de tantas outras, irá sofrer as consequências das escolhas políticas (que não são sequer consistentes no seio da própria família!) e que obrigaram o irmão mais velho a fugir com a mulher para Espanha, atravessando o rio a nado. Esta fuga é um ponto alto na história, breve, mas intensa!

Temos aqui um pouco de tudo: uma parte significativa da história política portuguesa, vista pelos olhos de quem estava longe das grandes cidades, temos a saga desta família que já conhecemos do livro anterior, temos paixões proibidas, amores inocentes, um crime e muita dor.

Temos uma narrativa cheia de pormenores, com muito em relativas poucas páginas. Isto porque Nuno Franco Pires tem a capacidade de relatar algo mundano de forma bonita, terna e até saudosa. Sim, porque este livro deixa saudades, apetece continuar esta viagem, leve (ainda que a história tenha momentos muito tensos!), serena (ainda que descreva uma revolução) e próxima (ainda que Elvas fique a uns bons quilómetros, junto à raia!). É este o poder de um livro, de nos levar para outro lugar, para outro momento, para outra realidade. “Abril” foi uma viagem e tanto!

Opinião... Freida McFadden * Nunca Mintas


Vamos a mais uma Freida McFadden? Pois é, comecei o mês de Maio com um desafio. Testar, para ver se conseguia ler um livro num dia. A escolha, dentro da minha TBR deste mês, pareceu-me obvia, já que costumo devorar os livros da Freida. Spoiler alert… consegui!

E não foi nenhum esforço, já que os livros da Freida sabem mesmo bem ler de forma compulsiva. “Nunca Mintas” não foi excepção.

Tudo começa quando Tricia e Ethan vão visitar uma casa que pretendem comprar. A casa é isolada e longe do rebuliço, exactamente o que procuram. Só que não escolheram o melhor dia para a visita, já que começou a nevar muito, prendendo-os sozinhos na casa (a senhora da imobiliária não conseguiu sequer chegar à propriedade). Uma luz acesa no andar de cima, leva-os a pensar que há alguém em casa, mas quando chegam lá tudo está às escuras afinal. E esta não é a única circunstância que os faz acreditar que não estão sozinhos, já que vão acontecendo pequenos incidentes muito estranhos… Mas a neve é soberana e nada mais lhes resta do que ficar abrigados.

Numa tentativa de se distrair, Tricia faz uma ronda pela biblioteca da antiga proprietária, uma famosa psiquiatra que desapareceu sem deixar rasto, três anos antes. O que ela encontra é muito diferente de literatura, mas igualmente interessante, as cassetes onde a médica gravou cada uma das consultas com os seus pacientes, escondidas numa sala secreta. Tricia não resiste à curiosidade e começa a ouvir estas cassetes. O que ela não esperava era ficar a saber de situações que poderão ter levado ao desaparecimento da doutora…

Este livro teve a capacidade de me pregar uma rasteira monumental. Criei as minhas teorias, conjecturei situações, mas nunca imaginei o desenlace. O título de um dos capítulos, (e atenção, bastou o título!), deixou-me de queixo caído. E a partir daí começa uma montanha russo do quem é quem que me divertiu muito!

Aprecio muito uma característica da Freida. Ela não cria personagens estanques, todas elas têm coisas boas, mas também esqueletos no armário. E é muito divertido perceber os elos e ver a teia crescer até que tudo faça sentido. Aqui foi muito evidente esta construção, que gostei muito.

A conclusão é similar a outros livros da autora, thriller viciante, com boas personagens e com um fim (mesmo na última frase) que ainda tem qualquer coisa a dizer. Muito inteligente!

Opinião... Freida McFadden * O Escritório


Escrever opiniões de vários livros de um mesmo autor, num curto espaço de tempo, e quando o autor mantém um registo estável, torna muito complicado não entrar em repetições.

Já me ouviram (e leram) dizer que Freida McFadden escreve thrillers viciantes, que apetece devorar. “O Escritório” não é excepção… Também já disse que os seus livros reservam sempre ao leitor plot twists inesperados que o apanham de surpresa. Mais uma vez, “O Escritório” não é diferente…

Desta feita, a acção passa-se, como o título indica, num escritório. Natalie é a melhor vendedora de produtos nutricionais da empresa, a Vixed e não guarda o feito para si, tomando até uma atitude de alguma sobranceria sobre os colegas. Já a nova colega, a Dawn, é o total oposto. Tímida e introvertida, obcecada por tartarugas e por ter tudo no lugar, é a vítima perfeita.

Sim, porque temos aqui bullying no trabalho. Natalie não perde uma oportunidade de rebaixar a colega, ainda que divulgue aos quatro ventos, o quanto a tenta ajudar. Mas tudo muda quando a pontualíssima Dawn falta ao trabalho. Pior ainda quando o seu telefone de secretária toca e Natalie atende para ouvir uma voz aflita a pedir socorro. Natalie não sossega e vai a casa da colega ver o que se passa e o que encontra irá mudar o rumo da sua vida…

Temos aqui um enorme jogo do gato e do rato, com muitas reviravoltas inesperadas e nenhuma personagem confiável. De tal forma que todas parecem suspeitas e, simultaneamente, inocentes. Nenhuma personagem é daquelas que apetece perdoar tudo, mas também nenhuma é odiável… confesso que não desvendei este desenlace e ainda bem, já que torna tudo mais empolgante.

Este é mais um daqueles thrillers que se lêem compulsivamente, que entretêm e espicaçam o leitor. Cada livro tem a sua função, e a deste é, sem dúvida, o entretenimento. Se é o que procuram, a aposta é segura!

Opinião... Lourenço Seruya * Crime na Aldeia


 “Crime na Aldeia” é o quarto volume da série “Bruno Saraiva”, e marca o aguardado regresso do autor Lourenço Seruya.

Desta feita, Lourenço leva-nos até Piódão, uma das belas aldeias de xisto do nosso país. Por falar em Piódão, esta é uma das características transversais aos livros do autor que eu tanto gosto, a importância do sítio onde a acção de passa. O autor referiu isso mesmo na apresentação deste livro, que tudo nasce do sítio escolhido e a narrativa cresce a partir daí. Acho muito interessante esta abordagem e gosto muito do resultado!

Depois, outro ponto chave nos livros desta série são as personagens. Em thrillers, é pouco comum haver personagens com espaço e tempo. O foco é sempre a acção e as personagens acompanham-na. No “Crime na Aldeia” (e nos livros anteriores também), sinto que tive tempo de conhecer cada uma das personagens, vê-las sobre várias perspectivas, perceber as suas razões. Quase como se de um romance se tratasse, o que é muito bom.

Falando um pouco da história deste livro, Gabriela pretende ir a Arganil, mas o seu carro não pega. Pede o carro emprestado ao pai, já que a reunião que tem é de extrema importância, contudo, sofre um acidente nas estradas sinuosas e morre.

O que de início parecia um trágico acidente, cedo se revela um crime, já que o carro tinha o fio dos travões cortados. A partir daqui entra em acção a dupla de inspectores que já conhecemos, Bruno e Carolina.

O facto de estarmos numa aldeia, que reduz substancialmente o leque de possibilidades, obriga o autor a criar uma teia muito bem urdida, de forma a levantar suspeitas fundamentadas em vários pontos para despistar o leitor. Lourenço Seruya conseguiu-o na perfeição! Tanto que não suspeitei do final até ser “atropelada” por ele!

O meu único “senão” com este livro prende-se com uma atitude de Gabriela que não posso referir aqui porque seria um enorme spoiler, mas que não compreendo muito bem e me levantou algumas questões quanto ao todo da história.

Ainda assim, gostei muito desta leitura, entreteve-me e manteve-me sempre alerta, à procura de sinais. Gostei muito de algumas personagens deste livro, do toque de humor, dos regionalismos. E, claro, fiquei cheia de vontade de conhecer esta linda aldeia!

Opinião... Ka Hancock * Dançando Sobre o Vidro


Terminei “Dançando sobre vidro” em lágrimas. Não sou muito de chorar com livros, mas este tocou-me profundamente. Isto porque a sua temática é muito dura e, principalmente, porque os acontecimentos no final do livro me apanharam de surpresa.

Temos aqui um amor quase impossível. Mickey sofre de doença bipolar, com crises violentas e frequentes que o levam ao internamento (achei estas partes muito bem representadas, francas e directas, perturbadoras). Já Lucy tem sobre si o peso da doença que lhe levou a mãe, o cancro. Ela e as suas irmãs sofrem e temem que a genética as condene. Mas o amor destas duas personagens fala mais alto e, aceitando-se, casam.

A verdade é que a sua relação assenta em verdade e na vontade de proteger o outro. Juntos irão lidar com várias crises de Mickey e com a temida doença, quando esta bate à porta de Lucy. Iremos conhecer este casal anos depois da recuperação de Lucy, numa altura em que já tinham decidido não ter filhos, para não correrem riscos de passarem algum mal para o bebé. Mas o destino prega-lhes nova partida, e Lucy, apesar de tudo, engravida. Mas não têm tempo sequer de assimilar a novidade, porque o maldito cancro está de volta também.

É aqui que todas as decisões são necessárias, porque gravidez e tratamentos não são compatíveis. É um sofrimento contínuo até ao final do livro, deixo o alerta!

A história é-nos contada a duas vozes, intercalada entre os pensamentos do Mickey (várias vezes meio perdidos) e a acção relatada pela perspectiva da Lucy. A dada altura entendi o rumo da narrativa e não me enganei (até determinado ponto), mas tal não estragou nada na leitura. Até porque o final ainda me reservava algo inesperado que me deixou de rastos.

É intenso, é emotivo, mas tem uma mensagem avassaladora. O amor é, de facto, um sentimento muito poderoso. E lindo, quando vívido em pleno.

Uma última palavra para o título, aparentemente estranho, mas que faz tanto sentido nesta história. Simplesmente perfeito!

Opinião... Nguyen Phan Que Mai * Quando as Montanhas Cantam

 


Que leitura incrível foi esta! “Quando as Montanhas Cantam” tem tudo o que procuro num livro: uma história de família bem construída, com personagens sólidas, incríveis e memoráveis. Para além disso, ainda contém muita História do Vietname, que desconhecia e me perturbou.

Temos aqui uma avó e uma neta como protagonistas principais, ainda que tenhamos muitas outras personagens com muito relevo para a história. E a acção passa-se em três momentos diferentes no tempo, o presente, um passado mais antigo, quando a avó era uma criança e um passado intermédio, quando a avó é adulta, com os seus filhos crianças.

No presente, Huong e a sua avó vivem o terror da guerra. Os pais e tios da pequena Huong partiram para a frente de batalha, pelo que as duas estão sozinhas a enfrentar a destruição da sua cidade e da sua vida. É nesta altura que a avó conta a Huong o seu passado, desde a infância, como forma de a levar para fora da realidade avassaladora que vivem. Mas o passado também não foi fácil. A avó nasceu no seio de uma família abastada que perdeu tudo, assistindo ao que não devia, muito nova ainda. Depois, já mais velha e com a vida relativamente estável, viveu a reforma agrária que a obrigou a fugir com os filhos, deixando tudo para trás (esta fuga foi a parte mais perturbadora do livro, para mim).

Toda a história desta mulher é de sofrimento, perdeu tudo, viu o pai morrer da pior forma, recuperou para voltar a perder tudo, teve de fugir, teve de tomar das decisões mais difíceis que uma mãe precisa de tomar e vive agora tempos de guerra. Teria todos os motivos para ser amargurada, com sede de vingança e, no entanto, tudo o que ela quer é amar a sua família, mantendo-a próxima e unida. Que personagem maravilhosa. Ficará para sempre comigo, como exemplo a seguir, sem dúvida!

Não tinha noção da dimensão do sofrimento deste povo. Embora seja uma história de ficção, baseia-se em situações reais, algumas delas passadas na família da autora, o que confere outra dimensão à leitura. É caso para dizer, a realidade consegue, muitas vezes, ultrapassar a ficção.

Esta é daquelas narrativas que me arrebatam e me deixam de lágrima no olho no final do livro. A escrita de Nguyen Phan Que Mai é simples, mas despojada de artifícios, tornando tudo muito real e próximo. Não é que eu goste de sofrer a ler, mas sendo retrato de uma sociedade não tão distante assim em termos temporais, é de extrema importância conhecer esta realidade. Recomendo muito a sua leitura!

Opinião... Maria Francisca Gama * A Cicatriz


Isto que vos vou dizer agora é pura verdade. Terminei “A Cicatriz” ao final da noite, já na cama, e sonhei com este livro. Acordei com uma sensação de angústia que nunca experimentei com outra leitura… E isto é dizer muito de um livro, capaz de nos transmitir tal emoção, com esta intensidade!

Se tivesse de descrever esta história em poucas palavras, escolheria: expectativa, ansiedade, angústia, horror e sofrimento. Porque toda a acção é como que uma crónica de uma morte anunciada, parafraseando o querido Gabriel García Márquez.

Desde o primeiro momento, o leitor sabe que algo de trágico aconteceu e que a nossa protagonista/narradora está no seu limite. Só não sabemos o que foi concretamente (embora se vá tornando mais previsível a cada nova página), nem o que o ultrapassar daquele limite representa.

A protagonista e o seu companheiro (a quem ela se refere como “ele”, sem nome) partem para o Brasil, numa viagem que esperam ser de sonho, quase uma lua de mel antecipada. Decidem viver o que de melhor o Rio de Janeiro oferece, sol, praias, caipirinhas, água de coco, bons restaurantes e bonitos passeios. Ainda assim, sempre alertados para os perigos que aquela cidade representa, principalmente para os gringos! Mas o hábito faz o monge e a falsa sensação de segurança faz com sejam cada vez mais descuidados, principalmente à noite. Até ao dia…

Toda a narrativa transmite uma ansiedade inacreditável para o leitor. A escrita de Maria Francisca Gama é muito inteligente, a forma como constrói as frases, como fala directamente com o leitor, como vai deixando recados aqui e ali. A veracidade que confere às suas palavras é outro ponto forte. Acreditei em cada palavra, como se uma amiga me falasse e isso fez-me sofrer, ao acompanhar o sofrimento dela. É intenso, aviso desde já!

Outra coisa que gostaria de salientar é o facto de haver tanto em poucas páginas (o livro tem pouco mais de 160 páginas). E não precisa de mais, está lá tudo, numa verdadeira montanha-russa que nos deixa de cabeça para baixo e estômago às voltas. É muito cru, não tem subterfúgios naquilo que quer contar, afinal a nossa personagem principal já escondeu o que aconteceu, de todos, demasiado tempo. É, agora, altura de contar a verdade e de se libertar.

Opinião... Jenny Colgan * O Café Junto ao Mar


Não se apreciar um livro de um autor que se adora é uma dor na alma… Jenny Colgan é das minhas autoras de romances “fofinhos” preferida. Tem a capacidade de criar narrativas amorosas, que me envolvem e me transportam para o lugar onde se passa a acção (sempre locais que desejo visitar) e personagens que aprecio e que torço muito que tudo lhes corra bem.

“O Café Junto ao Mar” não me ofereceu tudo isto. Achei toda a história mais “morna”, pouco original e não senti o esperado carinho por Flora, a personagem principal.

Acredito que parte deste sentimento se deva também à tradução deste livro. Existem inúmeras frases que me fazem pouco sentido, na forma como estão construídas. Isto obrigou-me a reler várias passagens, perdendo o ritmo de leitura e o entusiasmo, confesso.

Flora vive em Londres e trabalha num escritório de advogados. Mas ela é escocesa, mais precisamente de uma ilha muito a Norte, chamada Mure. Vive, portanto, afastada da família e da localidade que a viu crescer. Isto porque desde o funeral da mãe, se sentiu mal acolhida e decidiu partir, deixando para trás o pai e os irmãos, entregues à vida rural de sempre.

Quis o destino que um cliente da empresa onde trabalha quisesse uma profissional escocesa para tratar de um assunto pendente, precisamente em Mure. A escolha foi óbvia, apesar da pouca experiência, Flora era a única funcionária que cumpria o requisito, e vê-se, repentinamente, de volta à sua terra Natal.

Primeiro veio o choque do confronto com a realidade que escolheu deixar para trás, para a seguir os laços de sangue falarem mais alto e, é desta forma que Flora se vê de novo no seio da família, enquanto tenta ajudar o cliente a ser aceite naquela ilha pouco receptiva a estranhos.

Para temperar tudo isto, temos ainda a paixoneta que Flora tem há muito tempo pelo seu chefe, um mulherengo de sucesso da grande Londres, que, ao ver-se naquela ilha, percebe que existe mais vida para além da que rodeia o seu umbigo.

Gostava muito de ter gostado mais deste livro. Não aconteceu. Faltou-me empatia com as personagens, faltou-me entusiasmo com a história. Ainda assim, a parte que mais retive e apreciei foi, sem dúvida, a que toca às tradições escocesas, tão diferentes e originais e muito bem retratadas neste livro.

De qualquer forma, um livro não faz uma autora e Jenny Colgan permanece inabalável no seu lugar de autora de romances fofinhos no meu coração.

Opinião... Kristin Hannah * As Mulheres

Se me pedirem uma lista de autores(as) preferidos, certamente Kristin Hannah fará parte da mesma. Já li inúmeros livros da autora e entre eles encontram-se alguns dos meus preferidos de sempre, como “O Rouxinol” ou “A Grande Solidão”.

Esta premissa eleva de imediato a fasquia, mas Kristin Hannah nunca desilude! “As Mulheres” é um livro e tanto. Há aqui de tudo: uma boa história, uma pesquisa apurada do que foi a presença feminina na Guerra do Vietname, personagens extraordinárias e um romance bonito, embora dramático.

Fiquei muito surpreendida e, até indignada, com o que descobri neste livro. E terão sido, talvez, estes os sentimentos que impulsionaram a autora a contar esta história. Porque a verdade é que embora as mulheres tenham estado presentes na Guerra do Vietname, como enfermeiras ou médicas, salvando inúmeras vidas, nunca foram reconhecidas nem valorizadas por tal. Mais do que isso, após a Guerra, todos afirmavam que não tinham estado presentes e chegava a ser uma vergonha falar do assunto.

Vergonha foi também o que sentiu a família de Frankie, a nossa protagonista. Ela decidiu alistar-se depois de perder o irmão para esta guerra. A ida do irmão, ao contrário da sua, foi motivo de orgulho, visto como um herói. Mas Frankie decide seguir o seu coração e dá início a esta odisseia, nunca esperando as condições com que se deparou. Mas ela revela-se muito mais forte do que aparenta e transforma-se numa enfermeira de topo.

O livro é composto por duas partes, a primeira passada no Vietname, pesadíssima. Assistimos, juntamente com Frankie, a todo o tipo de atrocidades e à perda de vidas de forma brutal. Vale-lhe o sentimento de dever cumprido e a amizade para toda a vida com duas outras mulheres. O apoio entre elas é o que lhes permite sobreviver física e mentalmente. Na segunda parte do livro, acompanhamos a nossa protagonista no seu regresso aos EUA. Ao choque com uma realidade totalmente inesperada e adversa. Os próprios pais não a conseguem encarar, preferindo mentir e afastar-se. Perdida, Frankie terá de aprender a viver com esta nova realidade. A ajuda das suas duas amigas será uma vez mais essencial…

Este livro está cheio de grandes mensagens, mas a maior de todas, aquela que retenho e admiro é o poder da amizade.  A relação entre estas três mulheres é fabulosa e é bastante compreensível que tais laços tenham sido criados e solidificados.

Kristin Hannah é uma exímia contadora de histórias. Bem documentada, consegue colocar o leitor em qualquer cenário, seja ele idílico ou de guerra. A sua narrativa é vívida e permanece (e permanecerá) na minha mente. Há também lugar a romance aqui e, embora na minha opinião, não seja de todo o foco de “As Mulheres”, foi igualmente bem construído. Mais um livro muito duro, mas brilhante desta autora que tanto admiro!

Opinião... Rosária Casquinha da Silva * Da Janela Vejo o Sandokan


Ler “Da Janela Vejo o Sandokan” foi uma experiência de leitura diferente das que costumo fazer. Trata-se de um livro de short stories, que representaram para mim uma pausa no dia-a-dia, como aquele momento em que paramos para beber um café.

Por falar em café, esta bebida é uma presença marcante neste livro, bastante associada à janela que dá título ao livro, já que permite os momentos de reflexão e (até) divagação que resultam nestas pequenas histórias.

Há aqui um pouco de tudo, muitas memórias, saúde mental, momentos divertidos ou recordações de viagens. Imagino a autora na sua rotina diária a deparar-se com uma determinada situação que servirá como gatilho para algo que precisa de contar.

Temos muito em poucas páginas, porque temos o importante. Mensagens que a Rosária quis transmitir através das suas bonitas palavras, porque escreve realmente de forma bonita e cuidada, sem ser em demasia. Eu li o livro todo de seguida, mas é um livro que pode perfeitamente estar algures pela casa, e sempre que nos cruzarmos com ele, ler uma passagem. A tal pausa tantas vezes necessária!

Gostei particularmente da história “Palpitite”, que, pelo título, me indiciou uma coisa, mas que me levou por um caminho diferente do esperado e, no entanto, que gostei tanto! A leitura deste livro representou sempre uma pausa muito apreciada, obviamente que gostei mais (e me revi mais) numas histórias do que noutras, o que me parece perfeitamente normal, já que todos temos a nossa própria experiência que se reflete na forma como lemos.


 

Opinião... Ann Napolitano * Olá, Linda


Por vezes a relação de um leitor com um livro é muito curiosa e passa por várias fases. Foi o que me aconteceu com “Olá, Linda”. Comecei a sua leitura com muito entusiasmo e expectativas, depois de tanto ouvir opiniões muito positivas, para me deparar com uma leitura que não me agarrou de imediato. Até mais de meio do livro achei a história bem construída, mas sem me empolgar, o que esmoreceu o meu entusiasmo inicial.

A partir de determinada altura, ganha um novo fôlego e segue em crescendo até ao final. Mas ainda assim, precisei que passassem uns dias para sentir a força desta história em mim. Porque hoje, dou por mim a reviver momentos desta narrativa e a relembrar estas personagens, tão bem construídas.

Porque sim, a força desta história está totalmente centrada nas suas personagens. A família Padavano e todos os que com ela convivem são aqui dissecados e expostos desde pequenos até à meia-idade, passando por inúmeros eventos traumáticos.

Julia, Sylvie, Cecelia e Emeline são as quatro irmãs Padavano. O pai, Charlie, vive num outro hemisfério, onde as responsabilidades de adulto não existem. Já a mãe, Rose, tem sonhos que quer ver concretizados através das filhas e é o motor desta família.

William vive só e sente-se abandonado, depois da família ter sido destruída pela morte da sua irmã mais velha, quando ele era ainda um bebé. William irá encontrar em Julia uma companheira e na sua família, o aconchego que falta na sua. Até que os desejos de uns não coincidem com os de outros e os confrontos se tornam inevitáveis, abrindo brechas profundas nas suas relações.

Adorei poder acompanhar a vida destas personagens ao longo de tantos anos e, até, diferentes gerações. Sentir a sua evolução (nem sempre positiva), o seu amadurecimento. Os obstáculos que a vida lhes impôs, tornaram-nos quase humanos, reais.

A escrita de Ann Napolitano tem uma característica que gosto bastante. Lança uma determinada situação sem contexto imediato, para, no capítulo seguinte, explicar o que lhe deu origem. É uma interacção muito interessante com o leitor.

E, como disse no início, este livro tem vindo a infiltrar-se na minha pele com o passar dos dias e a consolidar o espaço que lhe é devido. Não é frequente acontecer, mas não deixa de ser uma sensação muito interessante!

Opinião... Sarah Addison Allen * Memórias de Família - A Árvore dos Segredos

 


Vou começar esta minha opinião pelo final e dar, desde já, as más novas… “A Árvore dos Segredos” foi o livro que menos gostei de todos os que li da autora (e já foram uns quantos).

Dito isto, importa explicar as razões. Reflectindo um pouco no assunto, diria que são essencialmente duas: primeiro, a história leva imenso tempo a arrancar, ao fim de muitas páginas lidas, muito pouco tinha acontecido, o que acaba por desmotivar a leitura. Ainda assim, se depois oferecesse uma narrativa cativante e emocionante, este início seria facilmente esquecido. Não foi o caso, infelizmente. O que me leva à segunda razão: achei toda a história muito rasa, muito óbvia, sem grandes elementos de originalidade, que me puxassem para a leitura.

Nesta história temos duas netas e duas avós: Willa e a avó Georgie, actualmente num estado avançado de perda de memória e Paxton e a avó Agatha, a viver num lar, mas com o mesmo feitio rebiteso de sempre. Georgie era descendente de uma família rica que perdeu tudo e Agatha viveu e vive no meio da riqueza. Mas elas eram grandes amigas e partilharam um grande segredo. Segredo esse que ficou encerrado na casa de Blue Ridge Madam, entretanto ao abandono. Mas quando Paxton e o seu irmão gémeo Colin decidem restaurar a propriedade, é inevitável que este segredo venha à tona.

A parte que mais me agradou nesta história foi, sem dúvida, o toque de magia em volta de Madam e o propósito original do Clube da Sociedade Feminina de Walls of Water, que se perdeu com o tempo, para vir a ser restaurado por Paxton.

Com tudo isto não quero dizer que o livro não é bom, no entanto, quando o comparo com outros da autora (de que tanto gosto), este fica aquém. Importa, no entanto, referir que este livro foi originalmente escrito em 2011, vários anos antes dos outros livros que li de Sarah Addison Allen, pelo que o seu amadurecimento como escritora poderá estar por detrás desta opinião. Acredito que sim.

De qualquer forma, não é este livro que me tira o entusiasmo com esta autora, um dos meus guilty pleasure literários, que irei continuar a seguir muito atentamente!