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Opinião... Victor Vidal * Não Há Pássaros Aqui


Victor Vidal e o seu “Não Há Pássaros Aqui” foi o vencedor do Prémio Leya 2023. Finalizada a sua leitura, consigo perceber as razões para a atribuição do prémio.

O autor fez aqui um trabalho de dissecação da mente humana incrível. Partindo de uma personagem feita em cacos, analisa cada um deles, procurando origens e razões, por um caminho, na maioria das vezes, muito tortuoso.

É uma história difícil de ler, de sentir e absorver, porque revela o pior do ser humano, mas a forma como o autor nos apresenta os factos, impede-nos de virar as costas e seguir.

Aqui conhecemos Ana, quando esta recebe um telefonema que lhe vai virar a vida do avesso, novamente! A sua mãe está desaparecida há uma semana e a sua presença é requerida pela polícia. Ana obriga-se então a regressar ao lar onde nunca foi feliz, revivendo os momentos tensos, tristes e que quer esquecer.

Talvez porque se viu obrigada a viajar até ao seu passado, num impulso decide ligar ao seu amigo de então, Benjamin e passaremos a ter, a partir daqui, duas personagens sofridas, amarguradas, perdidas no presente por conta dos seus passados.

A procura por respostas a questões pendentes fará parte do dia-a-dia dos dois, em busca de uma salvação que poderá chegar tarde demais…

Todo o livro é uma imensa dor, acontecimentos trágicos, mágoas, marcas profundas para sempre. A escrita é muito boa, criando uma teia em volta destas duas personagens, no presente e no passado, que nos levam numa espiral que roça a loucura. Perturbador, intenso e de um enorme sofrimento, até para o leitor, que assiste impotente, a tanta barbárie.

“Não Há Pássaros Aqui” é um título intrigante, mas que faz tanto sentido depois de lido o livro. Talvez se houvesse mais pássaros ali, com a sua beleza e encanto, a vida não tivesse sido tão dura…

Opinião... Gabriela Ruivo Trindade * Uma Outra Voz


Queria conhecer Gabriela Ruivo Trindade desde que ganhou o prémio Leya, em 2013. O seu livro, “Uma Outra Voz”, habita as minhas estantes quase desde essa altura. Felizmente tive oportunidade de ouvir a Gabriela falar num evento no Dia Mundial do Livro e gostei muito, quer das suas ideias, quer (principalmente) da sua forma de as transmitir. Foi o mote perfeito para ir buscar o livro e ler.

E posso desde já dizer que gostei muito! Encontrei nestas páginas a mesma fluidez de pensamento a que assisti naquele dia. Aqui, conta-nos a história de João José Mariano Serrão, um homem que fez a diferença em Estremoz, ajudando aquela localidade a chegar a cidade, principalmente com a fábrica de moagem e electricidade, que dá capa ao livro.

Mas esta história não nos é contada da forma tradicional. A autora escolheu várias vozes, em vários espaços temporais, cada uma com a sua versão da história, todas elas contribuindo para a riqueza da mesma. Ficaremos a conhecer as pessoas, o ambiente, os acontecimentos mais relevantes, tudo em redor deste homem que criou não só riqueza para a terra, como criou ainda os seus sobrinhos, na ausência de filhos próprios.

Mas esta é também uma história de amor, que se vai revelando aos poucos e é rematada pelo diário do próprio João, que fecha o livro com chave de ouro, fechando todas as pontas soltas. Esta construção é, sem dúvida, o ponto forte do livro, porque as várias perspectivas criam uma aura de mistério, que o leitor tem de ir descortinando ao longo das páginas.

A autora referiu que não gosta de entregar tudo de bandeja ao leitor e percebe-se isso neste livro. Cada nova parte é relatada por uma nova voz, que não sabemos de imediato quem é, o puzzle apenas se vai completando ao longo da leitura, algo que me agrada muito.

A sinopse refere que o livro se baseia em factos reais, mas não consegui perceber quanto do livro é real e quanto é ficcionado, o que diz muito sobre a qualidade da escrita da autora. Para além disso, a regionalização que introduziu no seu vocabulário torna-o ainda mais verosímil.

Foi, sem dúvida, uma leitura que me agradou muito e me faz querer descobrir mais da autora.