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Opinião... Keum Suk Gendry-Kim * Erva


De quanto horror é capaz a humanidade? E como é possível esta capacidade do ser humano de impor sofrimento ao seu semelhante?

Sempre que leio livros sobre as atrocidades cometidas ao longo do planeta, maioritariamente em cenários de guerra, fico muito incomodada. Será que não há evolução na humanidade? Nem esperança?

Em “Erva” Keum Suk Gendry-Kim conta-nos a história verídica de Ok-Sun Lee, uma mulher coreana que desde criança viveu em sofrimento. Nascida numa família numerosa e pobre, os seus pais acharam que entregá-la seria a forma de lhe dar um futuro. No entanto, as promessas de uma vida mais tranquila rapidamente foram substítuidas por um dia-a-dia de trabalho forçado. Que só veio a piorar quando Ok-Sun foi vendida e levada para a China para servir numa casa de Conforto. Era o nome dado às casas onde estavam meninas disponíveis para satisfazer os soldados chineses e japoneses.

Ok-Sun, à semelhança de tantas outras jovens foi abusada, desrespeitada, mal tratada. Passou fome, privações, humilhações. E isto durante anos. Foi a próprio que contou o seu passado à autora, o que torna tudo ainda mais real.

É este retrato que Keum nos entrega através do seu traço tão original. Se por vezes tem uma delicadeza sem fim, noutros é um traço duro e forte, como são as cenas que retrata. Tudo tem o seu momento e esta autora sabe criar impacto no leitor. O facto de ser totalmente a preto e branco também contribui para esta percepção.

Se já tinha gostado (ainda que também me tenha incomodado!) do seu livro anterior “A Espera”, este “Erva” foi muito mais pesado e impactante para mim. Sem dúvida um livro importante, que permanecerá nas minhas estantes para ser relido e sobre o qual falarei sempre que a ocasião o permitir. Fica a forte recomendação!

Opinião... Keum Suk Gendry-Kim * A Espera


Existem livros que chamam por mim, sem que perceba exactamente porquê. Foi o caso deste “A Espera”, soube que o queria ler assim que o vi. Não conhecia a autora, não sabia a sua nacionalidade, a capa pouco me explicou, não li a sinopse. É curiosa esta relação com os livros, não é? Finda a leitura, fico muito feliz com este “chamamento”, já que adorei cada bocadinho desta novela gráfica.

Não sei quanto de autobiográfico contém, mas de qualquer forma, retrata a vida de uma jovem mulher na Coreia do Sul, nos dias de hoje, com dificuldades em suportar uma renda em Seul, o que a obriga a mudar-se para uma zona mais rural, acarretando o peso de deixar Gwijá, a mãe idosa, na cidade, já que esta se recusa a acompanhar a filha. Mas retrata também a vida de outra mulher jovem, há muitos anos, que se viu obrigada a fugir da Coreia do Norte para a Coreia do Sul quando a guerra teve início. Casada há poucos anos e com dois filhos pequenos, Gwijá teve o infortúnio de se perder do marido e do filho mais velho durante esta fuga. Este acontecimento trágico irá marcá-la toda uma vida e hoje, com 92 anos, ainda acalenta a esperança de que a cruz vermelha lhe encontre o filho perdido há mais de 70 anos. Mais ainda depois de ver uma amiga reencontrar a irmã, renovando-lhe a esperança.

As ilustrações são a preto e branco, com um traço simples. E, no entanto, passaram-me tanto sentimento! A dada altura da fuga senti um impacto imenso com os acontecimentos, retratados de forma original e sensível, que me tocaram.

Todos sabemos o quanto a Coreia do Norte é um país fechado ao mundo, por isso mesmo, livros que nos mostram um bocadinho dessa realidade passada são sempre muito úteis. Aqui aliamos conhecimento e sentimentos, num cocktail que resulta numa leitura muito interessante e que recomendo sem reservas.